quarta-feira, 24 de junho de 2009

Blut bindet

Londres, 31 de Março de 2009, 14:00: Blut bindet.

Desde o telefonema para Leslie, Bella não conseguia deixar de pensar em sua viagem para Londres. Estava muito esperançosa por uma reconciliação, mas um tanto temerosa por uma recepção fria ou agressiva por parte da irmã mais nova. Bella passou a semana toda se preparando para viajar, mas não podia descuidar-se de seus afazeres e de sua relação com Klaudi, que havia estremecido nas semanas seqüentes a briga com Leslie.

Basicamente, ela só conseguia pensar em como tudo se resolveria após ambas conversarem pessoalmente. Klaudi e ela trataram de comprar algumas provisões para que Bella ficasse o mais confortável possível em sua breve estadia londrina, que seria de no máximo quarenta e oito horas, então não compraram muita coisa. A semana passou como num piscar de olhos, e quando Bella percebeu, já estava se despedindo de Klaudi, rumo à Inglaterra.

O tempo estava bom, então o vôo durou certa de duas horas. Seu coração começou a acelerar quando desembarcou. Não sabia se Leslie a estaria esperando acompanhada ou com as pessoas que a hospedavam. Nem mesmo sabia se ela estaria lá. Felizmente ela havia conseguido o endereço com Yuna, pouco antes de viajar. Enquanto esperava, sentou-se.

- Será que a Leslie vem me buscar? – Enquanto tentava achar um rosto conhecido por dentro da multidão. – Seria bom, porque senão tô perdida.

Bella esperou por cerca de meia-hora, e resolveu procurar um táxi. Quando ela cruzou a porta do aeroporto, se deparou com Leslie chegando. Ela estava sozinha.

Ela levou um susto, pois já imaginava que teria de ir ao encontro da irmã. Por um instante, pensou em abraçá-la, mas por bem, resolveu ser mais discreta e não forçar nenhuma situação.

- Oi, Leslie. – Acenou.
- Oi. Chegou agora? – Leslie foi curta e grossa.
- Sim, acabei de desembarcar.
- Bom, vamos então. – Pegou a mala e seguiu.
- Tá. – Bella a seguiu, aliviada pela não tão agressiva recepção.

As duas seguiram pela rua do aeroporto, até um Civic preto. Dentro do carro, havia mais duas pessoas. Bella não estranhou a aparência diferente de ambas as mulheres, pois estava acostumada a conviver com públicos alternativos. Ela cumprimentou ambas.

- Oi, sou Bella, irmã da Leslie.
- Olá, sou Kohaku. – Respondeu a mais alta.
- Olá, meu nome é Kasumi. – A outra respondeu, após tirar os fones.

Leslie levantou o banco para que Bella pudesse entrar, enquanto acomodava sua mala no porta-malas. Quando se aprontaram, o carro seguiu rumo ao apartamento de Haku. Durante a “viagem”, o silêncio imperou.

Bella ficou admirada com a cidade, era a primeira vez que ia à Inglaterra. Mesmo o céu cinza da cidade a impressionou. Antes que ela pudesse perceber, já estava entrando na garagem do prédio onde Haku, Kasumi e Leslie moravam. Quando o carro parou, Leslie desceu apressada e pegou a mala de Bella. Era nítido que ela estava evitando o contato direto. Haku e Kasumi seguiram tranquilamente até o elevador. O mesmo silêncio do carro continuou no elevador. As quatro no máximo se observavam discretamente.

Se Bella já havia ficado fascinada com a paisagem londrina, ficou ainda mais com o apartamento de Haku. A decoração simples, porém moderna e branca, refletia bem a personalidade da dona.

- Por que não se senta? Deve estar cansada da viagem. – Haku apontou o sofá para Bella, que sentou-se quase imediatamente.
- Obrigada, estou mesmo. Poltrona de avião não é nada confortável.
- Você e L-chan se parecem um pouco.
- Hehe, um pouco.
- Kasumi, talvez elas queiram conversar às sós. Vamos dar uma volta.
- Tá, Haku-sama.

Kasumi e Haku saíram, foram até o empório, deixando Bella e Leslie sozinhas para conversarem.

- Então você veio mesmo...
- Sim, eu disse que viria. Quero resolver essa situação toda.
- É, muitas coisas ficaram em aberto. Até hoje eu não engoli o que você me disse. Achou mesmo que eu estava mentindo?
- Leslie, vou ser bem sincera: achei sim. Nunca esperava ouvir coisas daquele tipo vindas de você. Tudo bem que a gente tenha atritos, mas não imaginava que chegassem neste nível.
- Bella, você ainda não entendeu?
- Calma! Me deixa terminar!
- Tá, continua.
- Então. Eu não entendi no começo, achei aquilo muito surreal. Mas, depois que esfriei a cabeça, comecei a pesquisar sobre o assunto. Você sabe que não acredito em Deus, no sobrenatural. Demorou pra eu poder conceber que isso fosse mesmo possível.
- Bella, sou tão atéia quanto você, mas eu não tinha porque mentir. Nunca tive o hábito.
- Eu sei... Isso que mais me fez ver o quanto eu fui ignorante. Eu, como sua irmã mais velha, deveria te apoiar, não virar as costas feito “Judas”.
- E no entanto, você virou... Sabe o quanto isso ainda me dói? Olha, eu não sei se posso te perdoar, você me magoou demais.
- Entenderia se não perdoasse. Mas eu não posso deixar de tentar.
- Bom, a prerrogativa disso é sua, mesmo.
- Eu gostaria que você me explicasse melhor como isso funciona.
- Mesmo? Ou só pra poder me dizer mais absurdos? Porque se você ousar me ofender, a gente vai ter que resolver isso na base da agressão, porque eu não vou tolerar insultos!
- Calma! Não fica nervosa! Eu falei sério sobre querer entender.
- Se você diz... Bom, comigo é assim: eu estou numa situação aleatória, quando do nada minha visão embaça e vejo coisas na minha frente, como se fosse um filme. Sinto também as coisas.
- Como assim?
- Vamos supor que você caísse no chão e machucasse o joelho.
- Sim.
- Pois então. Eu além de ver você cair, sentiria sua dor, como se fosse comigo que estivesse acontecendo.
- Então você sente tudo o que a pessoa sente?
- Sim, mas no caso a pessoa era EU. Eu me vi fazendo coisas que jamais achei que faria, nem em pensamento. Não te contei porque SABIA que não me entenderia.
- Hummm, e eu acabei sendo tão irracional, ignorante.
- Muito. Você me fez sentir um lixo de gente. – Leslie derrama uma lágrima do olho esquerdo enquanto fala. A voz um pouco trêmula.
- Eu só posso te pedir perdão. Me perdoe por não ser uma boa irmã. – Bella ousou tocar os cabelos de Leslie. – Pode me dar uma chance de me redimir?
- Não sei. Ainda é muito recente pra mim. Eu ainda tô com muito ódio de você.
- Pode ao menos pensar nisso?
- Isso eu posso.
- Bom, fico dois dias em Londres. Ficaria muito feliz se até eu ir embora você tivesse uma resposta pra me dar, mesmo que seja negativa.
- Responderei até você voltar pra Berlim, então.
- Eu espero...

Bella pediu a Leslie para que chamasse um táxi, pois ela precisava achar algum hotel para se hospedar. Bella saiu do apartamento com uma sensação de que a resposta de Leslie seria positiva. Leslie, por outro lado, ficou pensativa, confusa sobre qual decisão tomar.

Achou por bem esperar Kasumi e Haku voltarem, pois queria saber as opiniões delas. Assim que elas voltaram, perguntou.

- Bella me pediu para responder antes que ela volte pra Berlim. Daqui a dois dias. Só que tô tão confusa, não sei o que fazer. O que vocês acham? – Aflita.
- Eu só sei que Kasumi não sabe escolher biscoitos.
- Não! Calma! A culpa não é minha! – Kasumi pega um biscoito e dá para Leslie experimentar. – Experimenta essa droga.
- Kasumi, isso tem gosto de fóssil. Blargh! – Leslie cospe o biscoito nas mãos de tão ruim que era. - Nossa... Então Leslie já comeu fóssil...
- Aham, comi você.
- Se você tivesse comido Haku, tinha morrido envenenada!
- Vou dar um desconto pra Leslie, mas você, Kasumi... Deve calar a boca senão eu conto que você não sabe fechar a porta, hein?
- Porta? What motherfucking porta?
- Nada demais. Só alguns seres que não sabem manter momentos íntimos, intimamente.
- Chega! Vou fazer biscoitos! – Kasumi saiu da sala absolutamente corada.
- Hehe. – Haku deu um riso tímido, porém, emblemático.
- É pra entender o que entendi? E no fim, ninguém me deu uma opinião. – Leslie torceu o lábio, desapontada.
- Eu acho que você deve perdoá-la, pois quanto mais angústia e ódio você guardar, menos nobre você será. Sua irmã foi nobre ao ponto de engolir a ignorância e o orgulho e vir aqui te pedir perdão. Agora é sua vez. Aproveite que você tem uma irmã assim. – Colocou as mãos nos ombros de Leslie.
- Nossa. Você me quebrou agora. Mas tem razão. Por mais idiota que a Bella possa ter sido comigo, se ela realmente não quisesse meu perdão, não teria saído de um país para outro só para atender uma exigência minha. Vai ser duro, mas vou perdoar.
- Será mais duro você passar a vida toda se remoendo de algo que nem você e nem sua irmã tem culpa ao certo. Nenhum de nós sabe o que é isso ao certo. Só sei que já passei pelo mesmo que você. Creio que ela esteja apta a entender agora, e é melhor isso do que ser expulsa de uma família por pura ignorância.
- Haku, te achava inteligente, mas não imaginava que tivesse um conceito tão positivo sobre família. Passo a te admirar daqui em diante.
- Quando você perde, costuma a dar valor a estas coisas, mesmo. Só tenho a Kasumi do meu lado. De resto, tem cerca de trezentas pessoas que gostariam de me ver morta agora, todos familiares meus.
- Nossa. Perto dos seus problemas, o que Bella me fez não foi nada. Vai ver dei importância demais.
- Então relaxe, e vamos ver se a Kasumi não está destruindo a cozinha que inaugurei faz um mês!

Foram para a cozinha, onde encontraram Kasumi preparando a massa dos biscoitos, toda suja de farinha. As palavras de Haku calaram fundo dentro da mente de Leslie, e fizeram com que ela tomasse a decisão de perdoar Bella. Fora isso, estava crescendo um sentimento de admiração por Haku, e já era aparente.

- Kasu. Não entendo porque você insiste em comprar bolinhos industrializados sendo que os seus ficam tão melhores. – Leslie falando de boca cheia.
- É que eles tavam com uma cara ótima, não resisti. Na verdade, eu não resisto a nada doce na rua, mas depois desse “biscoito sabor fóssil”, vou pensar duas vezes antes de comprar o próximo. - Nossa, aquele biscoito tinha gosto de fóssil mesmo. Me senti comendo um biscoito de ossos misturados com terra. – Leslie riu.
- Calma! Não erro mais nisso, gente... Haha.
- Espero mesmo. Não tô afim de criar vermes novos dentro de mim.
- É. Ficam melhores se você mesma fizer.
- L-chan, posso fazer uma pergunta?
- Pode, oras.
- Você é virgem? – Kasumi simplesmente perguntou.

Leslie ficou azul de vergonha. Até Haku ficou sem ter o que dizer perante a pergunta de Kasumi. Um momento de silêncio constrangedor invadiu o ambiente.

- Cof! Cof! Ai, que pergunta Kasumi! Que isso!! – Leslie quase cuspiu o biscoito da boca.
- Ah, foi uma pergunta normal...
- Só sei que sou gay. – Até Haku ficou sem graça.
- “Normal”? Mas nossa, essa foi bem profunda... Tá. Sou sim.
- Viu? Não doeu.
- Mas doerá um dia... – Haku.
- Credo gente! Como vocês são!
- Se for com a Haku, vai doer. Coitada de quem fez algo com ela. Sua gigantona!
- Que horror, Kasumi! – Leslie já estava mais branca do que Danielle, de tanta vergonha.
- Como sabe Kasumi? Você já transou comigo? Melhor tomar cuidado ao dormir do seu lado.
- Gente, como vocês são pervertidas! Nem a Bella é safada assim! E olha que cansei de ver a cara de safada dela pra namorada.
- Eu não tô falando nada demais. Só tô respondendo essa retardada.
- Mas eu só tava com dúvidas, sua bruta! Leslie, vai ser com homem ou com mulher? Eu aconselho mulher.
- PUTA QUE O PARIU!!! VAI QUERER ME DESVIRGINAR TAMBÉM? QUE HORROR! – Leslie ficou indignada com a perversão de Kasumi. Haku apenas se levantou rindo de Kasumi, enquanto ia pegar café.
- Não, Leslie! São apenas dúvidas normais que pairam sobre minha cabeça. Mas, pegue a Haku, quem sabe assim o humor dela melhora.
- Kasumi, querida? Vai se ferrar?
- Tá, parei... Mas é um bom partido.
- Bom? Você acabou de chamá-la de bruta.
- Ei, ei, ei, ei, ei!
- Não é mesmo, eu tô zoando. É um péssimo partido que vai morrer virgem.
- Kasumi, definitivamente, você não é normal. – Haku olhou com cara de quem concordava.
- Vão se ferrar, suas virgens!
- Haha, falou A profissional do sexo.
- Melhor eu ficar quieta... – Haku, antes de tomar seu café.
- Mas L-chan, me impressiona uma garota como você ser virgem ainda, pois é tão bonita. Tá, reparei sim, normal isso. Pra falar a verdade, quando te vi, não dava uma semana pra você dar em cima de mim e da Haku.
- Vou estender minha roupa, licença... – Haku saiu, rindo.
- Kasumi, não sou puta. E você pelo visto não é nada santa. Aquilo de “não fechar a porta”, ficou bem claro.
- Não! Não tô te chamando de puta, L-chan! Só disse que foi a impressão que tive de você pela primeira vez por ser tão bonita! Não foi minha intenção, desculpa!
- É que no Japão, mina muito bonita costuma ser “meio” vaca. – Haku, já voltando da área de serviço. Tinha ouvidos de tuberculoso. Quando voltou, olhou firmemente o rosto de Leslie. Seus olhos estavam bem inquietos, como ansiando algo.
- E bom, “aquilo” foi um erro... Preciso fechar a porta da próxima.
- Tá, tudo bem. Esse é o estigma por ser loira. Mas enfim, nunca transei, nem namorei ninguém. Sei lá, os caras que conheci até hoje não eram muito sérios, nem confiáveis.
- Não se preocupe. Quando você menos esperar, “tcharã”, fez. E com quem menos espera. Comigo foi assim.
- HAKU! PRA QUEM VOCÊ DEU?
- Pra sua mãe, otária.
- Baka!
- Hahahaha. Isso que dá ser enxerida, Kasumi. Toma esporro mesmo.
- Mas eu sei quem foi! Foi a sua mestra! Há-há!
- Humpf. – Haku ficou sem graça e foi para o quarto. Leslie e Kasumi riram da cara engraçada que ela fez.

Kasumi acabou tocando num ponto que mexia com Haku: sua mestra. A relação entre ambas acabou de maneira conturbada, quando sua mestra foi encontrada morta, sob circunstâncias desconhecidas.

Haku ficou no quarto por um tempo, e só saiu na hora do jantar. Parecia bem, mas todas resolveram não continuar o assunto da tarde. O resto da noite transcorreu tranqüilo, exceto por Leslie se sentir um tanto invadida pelas curiosidades de Kasumi. Ela também ficou pensando em tudo que havia conversado com Haku, e ratificou sua decisão de perdoar Bella. Aquele mal-estar já havia perdurado demais.

Leslie se deitou para dormir cedo, por volta das onze da noite, dizendo sentir cólicas. Mesmo sentindo dores, conseguiu dormir. Durante o sono, voltou a sonhar, coisa que não se lembrava de fazer desde antes de começar a ter visões. Sonhou estar em casa, com seu pai e sua mãe, num aniversário distante, quando ainda era bem pequena. Leslie havia bloqueado lembranças de sua mãe, pois nunca aceitara bem sua morte. Mas, mesmo sonhando sobre coisas que tentava esquecer, o sonho foi agradável, e ela acordou sentindo-se bem e feliz. Pensou em ligar para Bella, mas achou que era cedo, então resolveu tomar café e esperar até mais tarde.

Depois de comer, resolveu fazer exercícios. Leslie não costumava ir à academia, pois achava muito movimentadas, então preferia fazer exercícios em casa. Deitou-se no tapete e começou a fazer flexões. Ela costumava fazer uma média de duzentas por dia. Enquanto fazia, Haku a observava, ainda pensativa por sua mestra. Leslie não notou sua presença, então Haku pôde ficar observando seu corpo por algum tempo.

De fato, ela tinha formas generosas, além do padrão europeu. Quando Leslie se virou para fazer alguns abdominais, Haku já havia saído. Ela passou rapidamente pelo escritório, e deu um bom dia para Haku. Depois passou pela cozinha, cumprimentou Kasumi. Dados os cumprimentos, Leslie sentiu uma vontade estranha de se arrumar, então caprichou no banho e escolheu um figurino mais bonito. Se arrumou como quem fosse sair, mas passou a manhã em casa.

Resolveu vestir um vestido, coisa que quase nunca fazia. Meias, caprichou na maquiagem, até colocou botas. Diferente do seu visual habitual, até parecia outra pessoa. Seu visual rendeu olhares curiosos das moradoras do apartamento.

- Caramba! Então tá, hein, Leslie? Desculpa aí...
- Haha, que foi? Não posso me arrumar um dia? Cansa só vestir trapos.
- Não vou mentir que você me inspirou a me vestir melhor. – Haku, quando veio pra sala.
- Bom, eu só quis me arrumar um pouco. Levantar a auto-estima. Tô parecendo a Bella, haha.
- Está bonita. Não que não estivesse antes. Ah, você entendeu.
- Um “pitél”.
- Valeu, gente. A gente podia aproveitar e sair. O dia está bom.
- Tudo bem, já terminei meu trabalho, mesmo. Agora estou livre por três meses.
- Nossa! Que Workaholic!
- Alguém precisa te sustentar, né, pirralha...
- Ótimo! Mas... Aonde vamos?
- Na Tomoko, assim tenho momentos de paz e Kasumi tem momentos de... Erm.
- Haku, cala a boca!
- Tomoko?
- É. A dona de um empório que tem aqui em Londres.
- Ahhh. Deve ter muita coisa interessante, então. Sempre vou a uma feira oriental em Berlim.
- Então vamos.

Haku e Kasumi saíram para se vestir, e Leslie esperou, assistindo tv. Quando elas ficaram prontas, as três saíram, rumo ao empório. Felizmente não era longe do apartamento. Quando chegaram, Leslie ficou encantada pelas lanternas Chouchin e pelas colunas que cercavam a entrada do lugar. O empório se chamava “Umeko”, e de longe se sentia um cheiro bom de chá.

A dona do empório se chamava Tomoko, e era uma velha amiga de Haku. Lá também trabalhava Nanase, neta de Tomoko, que dividia todas as tarefas do lugar. Leslie ficou encantada pela beleza do estabelecimento, da decoração e beleza das peças expostas na vitrine.

A decoração contava com móveis feitos de bambu, futons, bonsais. Também havia alguns sofás orientais, o chão todo feito de tatamis. Havia também uma linda mesa de chá, localizada próximo ao centro do lugar, várias prateleiras e mesinhas para degustação de diversos pratos e guloseimas japonesas.

O que mais chamava atenção era a área onde havia vários biombos e uma sombrinha enorme japonesa, fazendo sombra a dois futons, dando um ar muito aconchegante. As cores eram sempre claras, com exceção da madeira mais para tons caramelo, tudo impecavelmente limpo e arrumando, enchendo os olhos de qualquer pessoa que entrasse.

- Pelo cheiro, Tomoko deve estar preparando o chá. – Haku estava acostumada a ir ao empório esta hora. Sempre se divertia lá.

As três entraram, e foram recepcionadas por Nanase, Tomoko, e mais ao fundo, Sayako, também neta de Tomoko, que igual Leslie, era recém chegada à cidade.

- Nossa, pelo visto a Special Effects andou distribuindo tinta de graça por aqui. – Haku riu da cor dos cabelos de Nanase e Saya, apelido de Sayako.
- É, pintei de rosa, hehe. Oi Kasumi. E você? Quem é? – Nanase apontou para Leslie.
- Não responderei às suas provocações, Kohaku. – Saya, mal-humorada, respondeu.
- Sayako, não responda à Haku. Ela é nossa convidada. – Tomoko repreendeu Sayako levemente. Tinha uma voz e um olhar tranqüilos.
- Sorte a Haku e eu termos nascido com cabelos naturalmente azuis. – Kasumi se vangloriou dos cabelos.
- Bom, eu sou Leslie. Estou hospedada na casa da Haku.
- Só que o seu é meio “vencido”, Kasumi. – Disparou Saya.
- Vá à merda, vaca.
- Hehehe, se acomodem, vou buscar algo para comermos.

Tomoko apontou os futons, para que todas sentassem. Leslie estava um tanto constrangida, afinal era tímida, mas estava adorando o lugar.

- Você disse que está hospedada no apartamento da Haku? – Tomoko, voltando com uma bandeja grande com chá e “onigiri”, bolinhos de arroz.
- Sim. Vim para Londres para melhorar meu inglês. Sou alemã, na verdade.
- Verdade? De que cidade? – Tomoko ofereceu uma xícara a todas, e uma a uma foram se servindo.
- Berlim.
- Berlim? Deve ser uma bela cidade.
- Sim, mas é fria, hehe.
- Você gostaria de Berlim, Tomoko-san. Lembra bastante Londres.
- Um dia irei lá. Aproveito e levo minhas netas para conhecerem. Aliás, apresentem-se direito pra Leslie, meninas.
- Erm... Oi. Pode me chamar de Saya... E... Bom, te admiro por morar com Kasumi e resistir.
- Aupft. – Haku segurando para não rir.
- Sua estúpida! – Kasumi mostrou a língua para Saya.
- Oi, Leslie. Pode me chamar de “Nana”. Gostei do seu estilo.
- Haha, obrigada. Faz tempo que vocês tem o empório? Adorei a decoração!
- Faz sete anos que abri esse empório, com muito suor. Hoje estou com a minha vida e a das minhas netas garantida.
- Me adota?
- Mais fácil você me adotar, Haku. Sua família que é podre de rica. – Tomoko riu.
- Acho que o dinheiro mexeu com o cérebro da Kasumi. – Saya, apontando e debochando. Ela saiu da conversa, irritada.
- Hahaha, não esquenta, Leslie. Aqui é SEMPRE ASSIM.
- Ah, já me acostumei. A Haku todo dia pega a Kasumi pra cristo. Acho que até eu estou pegando a mania dela.
- Já volto. Fiquem a vontade enquanto pego umas tortas.

Tomoko saiu, mas a conversa continuou animada.

- Qual a idade de vocês? Desculpem a curiosidade, mas é que parecem mais novas do que eu.
- Tenho vinte e um. – Nanase, enquanto mexia no cabelo.
- Tenho vinte e um, também. Obrigada pelo elogio. – Saya.
- Acho que sexo rejuvenesce... – Haku, enquanto olhava fixamente para Saya.
- Credo, Haku. Você pensa em sexo tanto quanto um homem pensa. Ah! Nanase! Já pintei o cabelo de rosa, também! Como você faz pra que ele fique tão bonito? O meu ficou uma lástima!
- Tenho motivos pra ficar pegando no pé...
- Esquece isso, cara! É doloroso pra mim. – Saya se incomodou, por alguma razão.
- Erm... Hahahahahaha. Bom, eu descolori de pouco em pouco, e a Haku que pintou pra mim, ela entende dessas coisas.
- É a vida... Nunca fui pra cabeleireiros, então tive que aprender na raça.
- E pelo visto você aprendeu bem. O que deu na Kasumi? Está parada, olhando pela vitrine.
- Não tenho nada... – Kasumi ficou observando uma garota que passava em frente ao empório. Saya fechou a cara ao ver.
- Uia! Ciuminho juvenil! – Haku sempre implicava com Saya.
- Não é ciúme. Eu... Eu simplesmente acordei de mau-humor hoje. Talvez seja a falta de treino.
- Demorou pra você pegar na espada, então.
- Senti malícia nisso, Hakushima.
- Sentiu porque é maliciosa, ué.
- Gente, vocês me assustam. – Nanase ficava pasma com as conversas.
- A mim também. Cruzes. – Leslie se levantou e foi até Kasumi. – Tudo bem? Parece chateada.
- Não, eu não ligo.
- Bom, se você diz...

Leslie e Kasumi ficaram conversando, observando o movimento da rua. Enquanto conversavam, Haku frequentemente desviava o olhar em direção a Leslie, fato que Tomoko e Saya notaram.

- Ela é bonita. Não é, Kohaku? – Tomoko observava o olhar de Haku, enquanto tomava chá.
- Sim, é. – Haku ainda olhava.
- Por que não fala com ela?
- Falar sobre o que, Tomoko-san?
- Kohaku, querida, você não me engana. Mas parece que ainda está espreitando.
- Eu? Eu não espreito. Só estava olhando.
- Kohaku Hakushima apaixonada? Uau! – Saya aproveitou para dar o troco pelos inúmeros sarros que Haku tirava dela com Kasumi.
- Cala a boca, gafanhota. Vai treinar um pouco pra ver se você ao menos segura a espada corretamente.
- Haha. Haku, não ligue para Saya. Você devia aproveitar o dia propício e tentar uma aproximação.
- Tomoko-san, me sirva mais chá, por favor.

Tomoko era uma mulher bastante vivida, e havia lido muito bem a situação. Ela tinha certeza que Haku tentaria uma aproximação de Leslie, assim que tivesse uma oportunidade.

Depois que todas beberam e comeram, Tomoko pediu a Saya, Nanase e Kasumi que ajudassem com os pratos e xícaras, deixando Haku e Leslie sozinhas. Leslie, naquele momento, observava a luz da lua pela vitrine, embora fosse cedo.

- Vai nevar... Vai ser uma versão fria do inferno. – Como Tomoko previa, Haku se aproximou de Leslie.
- Haha, eu adoro o frio. Minha época favorita do ano. Enquanto Leslie falava, Haku assoprou o vidro da vitrine. Ficou totalmente embaçado.
- Ainda bem que ficarei de férias o ano inteiro. Trabalhei feito a formiga da fábula da cigarra.
- Nossa, que coincidência. Minha mãe sempre lia esta fábula pra gente, quando éramos pequenas. Sempre me imaginei sendo uma das formigas. – Leslie passou a mão no cabelo.
- Que legal que alguém leu pra você.
- Pois é. Nossa, esfriou.
- Já passei tanto frio na minha vida que hoje em dia nem sinto tanto frio assim.
- Como era a sua vida no Japão? Você nunca fala nada sobre você.
- Foi um inferno. Foi o molde de tudo o que sou hoje. Um casco vazio e traumático.
- Bom, eu não te acho vazia. Só triste. Aliás, acho que você tem muitas coisas interessantes pra mostrar.
- Eu nunca senti isso... Tristeza... Mas sinto coisas piores, e eu tenho certo receio... – Haku olhou Leslie com olhos desejosos.
- Receio de que?
- De me aproximar de você... – Haku intensificou o olhar.
- Mas por quê? Eu não mordo, haha.
- Infelizmente, eu arranco pedaço.
- Ui, que canibal. Te aviso que minha carne é bem dura. – Leslie estava começando a entrar no jogo.
- Haha. – Haku baixou a cabeça, pensativa. Falar do Japão sempre fora doloroso pra ela.
- O que houve? Disse algo que não devia?
- Não, Leslie. O problema não é com você, é comigo. Comecei algo que não devia.
- Não entendo porque você diz isso. Não fez nada demais.
- É uma longa história. Talvez eu te conte um dia. – Pondo a mão no rosto. – Tem a ver com revoltas sobrenaturais e muita dor.
- Bom, não somos tão diferentes. Por enquanto minhas visões pararam, mas creio que voltarão.
- Voltar, sempre voltam. Mas se você ficar atenta, voltam menos.
- Humm, eu espero que sim. Acho que Londres fará muito bem pra mim, eu sinto isso.
- Você fez bem pra mim, haha.
- Fiz, é? Como? Bagunçando sua casa e te dando gastos? – Leslie riu.
- Dando um sentido diferente na minha vida, talvez.
- Sentido? Eu? Que sentido poderia te dar?
- Um mais alegre que o óbvio: minha infelicidade.
- Você pode mudar isso. Deveria saber...
- Haha, é que você não sabe de nada. É chato quando se sabe o próprio destino.
- Como saber isso? Seu destino é você quem faz.
- Não no meu caso. Ele já foi traçado. Mas enfim, um dia você entenderá.
- Traçado? Você pode mudá-lo agora mesmo, se quiser. Se tem algo que aprendi na vida, é que nada é imutável, tirando a morte.
- Mas é aí que tá o problema. Eu sou a reencarnação dela! Hahahahahaha!
- Ah é? Pois, segundo Shakespeare, morrer era ter um orgasmo, sabia?
- Não significa que eu vou morrer, Leslie. Significa que eu posso matar.
- Nossa! Morri de medo, ó! Eu me vi matando minha irmã, você ser uma assassina não me assustaria.
- Ah... Nunca disso isso, mas... Foda-se então, né.
- Ui, a tigresa está afiando as garras, haha. Você não me assusta, Kohaku Hakushima.
- É difícil quando você tem seu destino traçado nas costas. – Haku se aproximou mais de Leslie, cochichou ao seu ouvido e passou a mão levemente em seu rosto.
- Sei... Você não me parece mais tão decidida. O frio apagou sua chama?
- Tá ficando folgada, branquela. – Haku encostou Leslie contra a vitrine, e disparou um sorriso sarcástico.
- Branquela, eu? Hahahaha. Você é praticamente transparente. Mas uma coisa não entendi: isso de reencarnação da morte.
- Vem, vou te mostrar.

Haku pegou Leslie pela mão e levou até o escritório de Tomoko.

- Vou fechar a porta, porque quero que você veja uma coisa. – Haku virou de costas e tirou a camisa. – Isso aqui nasceu comigo. – Leslie pôde ver o enorme kanji nas costas de Haku.
- Como assim “nasceu comigo”? Não sabia que tinha uma tatuagem tão grande.
- Lembra que eu disse que nasci amaldiçoada? Pois bem. Nasci com isso, e o kanji muda de significado às vezes.
- Nossa, não me lembrava. Tatuagem impressionante. Dá até medo.
- Experimenta tocar nela. Leslie se aproximou, pos a mão na tatuagem e uma gota de sangue escorreu.
- Credo! Saiu sangue! – Pos a mão na boca.
- É... A tatuagem sangra se tocada por alguém.
- É por isso que você evita contato?
- Não somente por isso, mas... – Vestiu-se novamente. – Não tô com saco pra falar disso agora. – Se aproximou de Leslie.
- E falaremos do que, então? A propósito, cadê todo mundo?
- “Morreu”. – Haku se aproxima mais e pega a mão de Leslie. – Desculpe se sujei você, mas se ter contato comigo sangra, vou te sujar mais, então. – Rostos próximos.
- Hã? Não entendi. – Leslie solta sua mão.
- Não precisa...

Haku sorriu, pegou no rosto de Leslie, e antes que ela pudesse dizer algo, Haku a beijou apaixonadamente. Leslie não beijava ninguém havia meses, e jamais havia beijado uma mulher. Haku, senhora da situação, a encostou contra a parede, segurou sua cintura com uma das mãos e a nuca com a outra. As duas ficaram tal envolvidas, que era difícil definir onde terminavam os lábios de Leslie e onde começavam os de Haku. Haku a segurava firme, para que não fugisse do encontro, mas de maneira terna. Leslie mentalmente estranhava o que estava fazendo, mas Haku a havia dominado, como uma raposa dominando sua presa.

Os beijos eram tão fortes e intensos que chegavam a estalar, como fogos de artifício numa noite de festa. Haku era vigorosa, mas respeitava Leslie, não passava por nenhuma de suas generosas curvas, pois sentia que isso deixava Leslie mais segura e a vontade.

Ficaram daquele jeito por alguns minutos, quando a própria Haku resolveu deixar Leslie se soltar. Evidentemente que ela ficou confusa, mas intimamente adorou o gosto dos lábios da japonesa. Leslie sentiu toda a força de suas pernas se esvair, e teve de se sentar. Estava tão pasma pelo acontecido, que mal conseguia raciocinar.

Haku, vendo que essa era sua grande chance, apenas deu um refresco momentâneo para Leslie, e tratou de partir para nova investida. Sem cerimônia, envolveu Leslie em seus braços, a pegou no colo e pos sobre a mesa, pois era difícil para ela, pela estatura elevada, alcançar Leslie. Difícil descrever o momento. Imaginem dois namorados muito apaixonados, experimentando as primeiras sensações conjuntas. O medo dando ainda mais sabor aos beijos e abraços. Mãos que tremem e se entrelaçam, dando proteção uma à outra.

Duas energias se atraindo e se repelindo, como dia e noite. Palavras não explicavam, apenas tentavam traduzir as sensações. Haku enfim pôde demonstrar toda a força de seus sentimentos, que sempre mantinha escondidos por trás de uma muralha de aço, dor, ressentimento e morte. Leslie aceitou tudo o que ela queria lhe dar, talvez por se sentir da mesma maneira durante toda sua vida. Os beijos agora se misturavam a risos, sensações de felicidade. Leslie e Haku eram como uma única pessoa. Vivendo, amando, sentindo, tudo numa coisa só. Leslie, por outro lado, estava se sentindo realmente uma mulher, não apenas uma estudante exótica.

Enquanto elas aproveitavam o momento, que era tão esperado por ambas, mesmo inconscientemente, o que Haku mais temia e procurava evitar, aconteceu: a morte, que era idêntica a Haku, exceto pelos cabelos negros e olhos vermelhos, se materializou dentro da sala, e ficou observando a cena. Por um instante, Leslie abriu os olhos e a viu.

Assustada, Leslie se soltou de Haku.

- QUEM É ELA?? – Apontando para a morte.
- Quem nós encontramos no final da vida... – Haku teve que se resignar, pois sabia ser inevitável. - Pois bem...
- Mas como? Ela é idêntica a você! – Leslie desceu da mesa, incrédula.
- E também a você. – A Morte se transmutou na forma de Leslie, inclusive vestindo as mesmas roupas. – Também sou igual à Kasumi. – Transmutou-se nela. Aliás, sou igual até a sua mãe, se quiser.
- E então? - E então que só vim te lembrar das conseqüências. Mas, é você quem sabe... Você sabe quem sairá machucado... – A morte puxou uma cadeira e se sentou.
- Ok. Se era isso que você tinha pra me dizer, pode ir embora. Você tá assustando ela. Além do que, eu sei o que estou fazendo.
- Hum... Que bom que posso contar com você, Haku...

Leslie apenas observava a cena, sem saber o que dizer ou fazer.

- Erm, então, SOME. – Haku estava tão acostumada com a morte, que já conseguia rir dela.
- Já tô indo. Divirtam-se, mortais... – A morte se levantou e atravessou a parede.

Depois que a morte saiu, Leslie conseguiu voltar a falar.

- Nossa, o que foi aquilo? Não consigo acreditar! – Pasma.
- A morte. Ela vem me visitar, às vezes. Na verdade, temos muito o que conversar ainda, Leslie... – Haku ajeitou os cabelos, enquanto falava.
- É... Temos mesmo... Eu não sei direito o que aconteceu aqui. Muita coisa ao mesmo tempo.
- Sinto que minhas costas estão quentes... – Haku passou a mão nas costas, e voltou cheia de sangue. Era a “Marca da Morte”. – Putz.
- Você tá sangrando?? Você precisa de curativos!
- Não dói, e não adianta colocar curativos. Só para com um bom banho. – Pensativa. – Eu tinha feito algo pra que isso não acontecesse.
- Ai. Tô tonta... Não tô me sentindo bem... – Leslie sentiu-se estranha, talvez pela cena que presenciou.
- É normal essa reação. Você só precisa respirar fundo e lembrar que tá viva. É que você deve ter se esquecido.
- Não é isso, é que eu tenho pressão baixa. Preciso me sentar. - Leslie jogou o corpo sobre a mesa e se sentou. Normalmente voltava rápido ao normal.


Apesar dos pesares, o restante da noite transcorreu normalmente. Haku e Leslie voltaram para a área principal do empório, a tempo de testemunhar uma conversa animada sobre como Kasumi era desastrada e derrubava coisas. Fato tal, que se não tivesse sido a agilidade de Saya, ela teria derrubado um vaso. Vários pensamentos invadiram a mente de Leslie: o que havia acontecido com Haku, como ela lidaria com isso e a morte. Leslie só tinha tido visões até o momento, não um contato tão profundo e direto com o sobrenatural. Naquela noite, ela não conseguiu dormir.