Berlim, 24 de Março de 2009, 2:00 da manhã: Trauer und Bedauern
Fazia apenas quatro dias que Leslie havia ido para Londres, e a casa dos Himmenfeld vivia praticamente inabitada. Johan ainda estava em Paris, e ficaria por mais alguns dias fora. Desde o incidente com Leslie, Bella raramente ficava em casa. Passava a maior parte dos dias no apartamento de Klaudi, tentando esquecer do ocorrido.
- Sem sono de novo, Be? – Klaudi, ainda com os olhos embaçados, perguntou, ao ver Bella sentada na cama.
- Não, por mais que tente, não consigo fechar os olhos.
- Ainda o mesmo problema?
- Sim.
Klaudi então se levanta e cobre Bella, pois fazia frio aquela madrugada.
- Amor, você precisa dormir. Deita, está frio.
- Como se eu conseguisse. Faz dias que praticamente não durmo.
- Não come direito, também. Vai acabar doente.
- Não tenho tido muita fome... – Bella olhou Klaudi com olhos tristes.
- Bom, você sabe o que eu acho. A solução pro seu problema está numa simples ligação. Por que não liga logo pra Leslie e se desculpa pelo que disse? Eu acredito no que ela falou, você sabe.
- Não sei como ela reagiria ou se me atenderia. A discussão foi muito séria, e por culpa minha.
- Duvido que não atenderia. Certamente ia te xingar, mas ao menos você teria tentado. Não gosto de te ver assim.
- Ai, não sei se ligo ou não.
- Bella, faz quase três semanas que a discussão rolou. Você acha mesmo que ela não falaria nunca mais com você?
- Klaudi, eu tenho medo disso acontecer. Tirando ela, só tenho meu pai.
- Por isso mesmo você precisa fazer as pazes com ela. Já se culpou demais pelo que aconteceu. E Bella, você sabe que ela não mentiu.
- Preciso de mais tempo, não tô pronta pra isso, ainda.
- E vai ficar mais dias sem dormir e sem comer? Ah não, você vai ligar sim, e será hoje. Nem que eu precise te socar pra isso.
- Klaudi, e se ela me odiar?
- Foda-se! Além do mais, será um preço a pagar pelo que você fez. Só te restará se conformar e mais adiante tentar se redimir.
- Falar “foda-se” é muito fácil.
- Muito fácil é você ficar acomodada esperando que ELA te ligue, sendo que VOCÊ errou com ela, não acha?
- Nem sei mais o que achar! – Bella elevou o tom de voz.
- Ah, Bella, não seja idiota, né? Se quer ficar sofrendo por puro orgulho, fique. Eu vou dormir! Boa noite!
Klaudi voltou a deitar-se, virando para o outro lado da cama. As palavras dela deixaram Bella pensativa, mais do que já estava.
Quando Bella conseguiu dormir, já era dia. Enquanto dormia, sonhou com a infância dela e de Leslie, quando brincavam no jardim da primeira casa que tiveram. As duas eram bastante unidas, mas as personalidades divergiam em vários pontos. O sonho de Bella ainda mostrava sua mãe, Yuki, levando ambas no colo para dentro de casa, debaixo de chuva. Mesmo com a chuva, as três sorriam.
A falta da mãe para ela era igual a falta para Leslie, mas Bella falava dela mais abertamente.
Durante a manhã, Klaudi se levantou e foi para o trabalho, deixando Bella ainda dormindo. Klaudi era muito apaixonada por Bella, mas odiava a imaturidade que ela muitas vezes demonstrava. Sempre quis que Bella viesse morar com ela, mas em circunstâncias mais agradáveis que a atual.
Klaudi trabalhava como estagiária numa empresa de advocacia, em meio expediente. Enquanto ia para o trabalho, pensou em como sua relação com Bella andava estremecida depois do desentendimento dela com Leslie, e da revelação de suas visões.
Passou o dia pensando em como fazer Bella ligar para Leslie e findar definitivamente a situação que incomodava ambas, o que lhe rendeu broncas do supervisor pelo atraso na revisão de alguns processos. Estava tão preocupada que mal percebeu o tempo passar.
Enquanto isso, no apartamento dela, Bella olhava incessantemente seu celular, tentando tomar coragem de ligar para a irmã. Ainda estava vestindo uma camisola que sempre vestia para dormir. Cabelos ainda desarrumados. Apertou o botão correspondente ao número dela na memória do celular diversas vezes, mas o medo de ligar era maior. Decidiu então, tomar um banho, trocar de roupa e fazer algo para comer. Bella não tinha emprego fixo, trabalhava criando roupas, que vendia em seu site, o 8fu.de. Sua especialidade eram espartilhos.
Como Bella levantou tarde, preocupou-se em almoçar bem, pois passaria o restante da tarde trabalhando em encomendas.
Havia pelo menos três em espera, então ela não podia perder mais tempo. O problema é que Bella não conseguia se concentrar como antes. Já que ela não tinha escolha, precisava enviar as encomendas até o fim da semana, resolveu meter a cara no trabalho. Ficou trabalhando até a hora que Klaudi voltou.
- Be! Bom ver você trabalhando! – Klaudi largou sua bolsa num sofá e deu um beijo em Bella.
- É, hehe. Tenho bastante coisa pra entregar. Não posso perder mais tempo.
- Muitas entregas, é?
- Sim. Vou ficar ocupada mais um tempo, se importa?
- Não. Só preciso de um banho e jantar.
- Ah, tem comida pronta, só você esquentar.
- Tá. Depois quero um tempo pra nós duas. – Ela riu, enquanto lançava um olhar malicioso sobre Bella.
- Hahaha, quando eu terminar aqui. Klaudi saiu e foi tomar banho. Tratou de se preparar para ter uma noite romântica com Bella. Quando ela saiu do banho, um cheiro de perfume inundou a casa.
- Adoro esse perfume. – Bella, ao terminar as encomendas, toda cheia de pedaços de couro e linha.
- Eu sei, usei ele para você, Be. Ultimamente a gente não tem feito nada juntas.
- É. Eu pensei no que você me disse ontem, e vi que tem razão.
- Então você vai ligar pra Leslie?
- Vou, mas antes quero ficar com você.
Bella foi ao encontro de Klaudi e elas se beijaram apaixonadamente. O desfecho da cena é fácil concluir. Passaram o restante da noite matando as saudades, coisa que Bella não conseguia fazer, culpa de seu arrependimento pela briga com Leslie.
Na manhã seguinte, sábado, os humores de ambas eram outros. Porém, a dúvida ainda persistia na mente de Bella, embora em menor proporção.
- BOM DIA, MEU AMOR! – Klaudi saltou sobre a cama, segurando uma bandeja. Havia preparado o café da manhã com coisas que Bella adorava comer, como croissants, geléia de damasco, leite.
- Bom dia, linda! Você me deu um susto! – Bella, ainda esfregando os olhos. – Nossa, que café mais caprichado! Amei! – Bella passou a mão no rosto de Klaudi, finalmente voltando a sorrir.
- Que bom! Agora trate de comer.
- Sim, eu vou.
As duas ficaram na cama até o início da tarde, apenas conversando e trocando carinhos. Bella não conseguia esconder certa ansiedade em ligar para Leslie.
- Está pronta, Be?
- Ai Klaudi, não posso dizer que sim, mas preciso me redimir. Disse absurdos aquele dia.
- Disse mesmo. A Leslie não merecia aquilo de você...
- Eu sei. Demorei, mas percebi meu erro. Bom, meu coração tá acelerado, haha.
- Eu tô aqui. – Klaudi passou as mãos nos ombros de Bella, encorajando a namorada.
- Não sei o que seria de mim, sem você, te amo.
- Te amo, também. Agora liga.
Bella curvou o corpo na cama, para poder alcançar à cômoda, e pegou o celular. As mãos meio trêmulas, mas tomou coragem e discou o número. Uma voz forte respondeu.
- Alô?
- A-alô? Leslie? – Bella não conseguia evitar gaguejar.
- Não, aqui é uma amiga dela.
- Ela está? Sou Bella, irmã dela.
- Ah, você é a ruiva mimada que achou que ela tava mentindo? “Prazer” em te conhecer.
- Desculpe. Com quem eu falo?
- Fala com alguém que te acha uma babaca por dizer aquelas barbaridades pra Leslie.
- Eu quero falar com minha irmã, não com VOCÊ.
- Ela não está. Passar bem. – Desligou.
Bella ficou atônita com a agressividade da pessoa que atendeu, mas pelo voz percebeu que não era Leslie. Klaudi assistiu à cena, sem entender nada do que se passava.
- Ai! Que ódio! – Bella jogou o celular longe.
- Calma. O que aconteceu?
- Alguém atendeu o celular da Leslie e ficou me xingando! Pode isso?
- Mas o que a pessoa disse?
- Ah, me xingou apenas e disse que ela não estava.
- Que horror. Mas, Be. Se a pessoa te xingou, é porque Leslie contou da briga.
- Eu só não fico mais irritada porque sei disso.
- Liga outra hora. Vai ver ela atende.
- É. Vou dar umas horas e ligo de novo.
A raiva pelo telefonema passou logo. Bella e Klaudi tinham a tarde livre e resolveram passear por Berlim. O dia estava frio, mas agradável. Voltaram no fim da tarde, depois de irem ao cinema.
- Vou ligar de novo. – Bella mal deixou a bolsa no sofá e já saiu com o celular em punho. Ela discou e aguardou.
- Alô? – O sotaque entregou que Leslie havia atendido.
- A-alô? Leslie?
- Bella?
- Oi...
- Ué, eu ressuscitei pra você?
- Leslie, eu liguei pra te pedir desculpas.
- Pelo que? Por me chamar de mentirosa ou por dizer que nunca mais queria me ver na vida?
- Pelos dois. Eu tive tempo pra refletir e vi que fui muito injusta com você. Podemos conversar?
- Conversar? Mortos não falam, não sabia?
- Por favor...
- Tá, fale.
- Bom, eu pensei bem, e vi que errei. Mas foi complicado assimilar aquelas coisas todas. Eu nunca acreditei em sobrenatural ou paranormal. Você sabe disso.
- Isso me diferencia de você. Se você tivesse me contado que tinha visões, eu poderia até não acreditar, mas respeitaria. E não foi isso o que você fez. Preferiu achar que eu era uma psicopata ao invés de ao menos me dar benefício da dúvida.
- Eu sei. Eu quero te pedir perdão por tudo. Esses dias longe me fizeram mal.
- TE fizeram? E quanto a mim? Tachada de mentirosa, psicopata. Bella, como você simplesmente quer que eu te perdoe?
- Não sei, mas quero minha irmã de volta. Já paguei um preço pela minha ignorância.
- Na boa, Bella. Mas um simples telefonema não basta pra mim. Se você quer “sua irmã de volta”, vai ter que vir aqui e falar comigo pessoalmente.
- Pessoalmente?
- Claro, queria o quê? Se quer que te perdoe, vamos ter muito o que conversar.
- Quando você pode me ver?
- Apenas venha logo. Sinceramente? Eu sinto que deveria te mandar pro inferno de vez, mas ainda há um lado meu que quer te ver. Se você realmente gosta de mim, terá de provar.
- Certo, como você quiser. Irei pra Londres ainda essa semana.
- Então nos falamos quando você chegar. Me ligue assim que pousar aqui.
- Ok.
- Tchau.
- Tchau...
Após Bella desligar, Klaudi entrou no quarto.
- E aí? Be? Como foi?
- Bom, ela disse que se eu quero que ela me perdoe, terei que ir pra Londres. – Bella resignou-se.
- E você irá, né?
- Sim, só preciso entregar minhas encomendas, arrumar malas e marcar um vôo.
- Vá, sim. Tudo se resolverá.
- Sabe, a Leslie foi bem seca comigo, mas fiquei esperançosa por ela querer me ver. Isso deve ser bom sinal.
- Com certeza! Quer que eu vá?
- Klaudi, desculpa, mas desta vez, não. Preciso resolver isso sozinha.
- Não precisa se desculpar, você tá certa. Vou torcer pra que dê tudo certo!
- Valeu, amor!
As duas se abraçaram. Seria esse o início do fim do ciclo de dor e arrependimento? A resposta está em Londres.


