terça-feira, 2 de junho de 2009

Die Nebelstadt II

Londres, 23 de Março de 2009, 11:00 da manhã: Die Nebelstadt II

A terceira noite em Londres já foi mais tranqüila. Leslie conseguiu dormir bem. Conseguiu até lembrar-se de um sonho que teve, onde ajudava Haku a fazer cookies, na cozinha. Normalmente ela lembrava pouco dos sonhos que tinha, mas este estava bem nítido em sua mente. Como normalmente ela tinha sonhos estranhos, nem deu importância.

A manhã estava fria, mais que a anterior. Enrolada no cobertor, saiu do escritório em direção ao banheiro. O apartamento estava vazio.

- Ué, onde será que elas foram? – Indagou, surpresa pela repentina solidão.

Aproveitou que estava só e foi tomar banho. O chuveiro do apartamento era bem quente, algo que amenizou o frio quase intenso matutino.

Vestiu-se e foi até a cozinha. Pegou alguns bolinhos, um copo de leite e foi para a sala. Sentou-se, ligou a TV, e estranhou a programação inglesa. Normalmente Leslie assistia a filmes, desenhos, seriados e jornais. Preferia passar o tempo usando o computador. Como naquela hora não havia nada que a tivesse interessado, terminou de comer e resolveu sair por conta própria.

Leslie havia baixado mapas de Londres e os colocou num GPS, então não seria um problema se locomover pela cidade. Antes de sair, deixou um bilhete dizendo que voltaria logo. Pegou um sobretudo preto que tinha, e saiu. Kasumi havia lhe dito como chegar ao centro da cidade, então ela caminhou até um ponto próximo e esperou. Enquanto esperava, o celular tocou: era Danielle.

Desde que havia chegada a Inglaterra, só haviam se falado uma vez.

- Ei! L! Tudo bem?? Como está aí em Londres? – A ligação não estava boa, então Danielle teve de repetir a pergunta por duas vezes.
- Fria e nebulosa! Como eu esperava! Tô ótima, e você?
- Bem, também. Como vai com a nova família?? Elas são legais??
- São sim! Estamos nos dando muito bem!
- Que bom!!! E a cidade?? Já caiu na balada?? Haha.
- Que nada! Só saímos ontem, fui conhecer um bairro chamado Camden. Cada figura que vimos lá! – Enfatizando.
- Haha, imagino. Já ouvi falar desse lugar. Dizem que é ótimo mesmo.
- É!! Eu adorei lá! Você ia curtir também!
- É, se eu estivesse com mais grana, ia aí te ver, mas tá complicado agora, hehe.
- Sei... Você não para de gastar, queria o que?
- Ahhhhhhhh, dinheiro não vai pro caixão, pô!
- Verdade... Bom, preciso desligar, o ônibus está chegando. Beijo!
- Me liga depois! Beijos!

Mal deu tempo dela desligar, e já estava no ônibus, seguindo rumo ao centro. O centro de Londres não parecia ser tão diferente do centro de Berlim, exceto pela arquitetura e a presença constante dos tradicionais pubs. Como Leslie não havia planejado nada de especial, resolveu apenas ir caminhando, vendo o que os locais poderiam lhe oferecer.

Resolveu parar em uma loja, mas mais para se esconder do vento gelado que batia em sua pele clara. Suas bochechas coravam facilmente. Era uma loja de antiguidades, chamada “Old-stories”, cheia de bugigangas penduradas. A loja tinha um cheiro de madeira antiga, certamente por causa dos móveis expostos. Uma senhora gentil a atendeu, falando com o típico sotaque inglês.

- Se interessou por algo, minha jovem? – A senhora aproximou-se, com olhos doces.
- Não, obrigada, estou apenas olhando. – Leslie respondeu, enquanto segurava uma boneca de pano antiga.
- Pelo seu sotaque, você deve ser alemã. De Berlim. Estou certa? – A senhora sorriu.
- Como a senhora adivinhou?? – Espantou-se.
- Compro muita coisa de alemães. Vou muito a Berlim e Frankfurt, por isso sei diferenciar. Gostaria de tomar uma xícara de chá? Acabei de fazer. – A senhora apontou rumo a uma mesa, no centro da loja.
- Aceito sim, danke! A senhora e Leslie sentaram-se a mesa.

O cheiro do chá era ofuscado pelos móveis. Havia alguns brownies numa bandeja de prata. A senhora serviu chá a Leslie, e disse que pegasse brownies. Ela não recusou.

- Então, o que te trouxe a nossa cidade cinzenta? A propósito, me chamo Herriett Vilmair.
- Vim fazer intercâmbio, preciso melhorar meu inglês.
- É mesmo? Você me parecer falar bem. Só tem um pouco de sotaque. – Herriett, antes de dar um gole na xícara.
- Ah, sei me comunicar, mas não falo fluentemente. A senhora vai sempre ao meu país, então?
- Frequentemente. Adoro o clima de lá. É igualmente frio, mas sempre tem céu azul. Aqui é sempre cinzento. Está gostando daqui?
- Bom, cheguei tem apenas três dias, mas estou adorando!
- Que ótimo! Londres tem muitos lugares interessantes para conhecer, especialmente para os mais jovens.
- Nossa, esqueci de me apresentar! Me chamo Leslie!
- Leslie... Nome bonito, mas não é alemão.
- Haha. Não mesmo. Meus pais achavam bonito.
- De fato, ele é. Mais chá?
- Aceito.

As duas ficaram conversando sobre assuntos diversos, e Leslie acabou comprando a boneca que segurava. Resolveu chamá-la de Yuki, nome de sua mãe. Quando deixou a loja, passava da uma da tarde. Como havia restaurantes por perto, resolveu almoçar em um deles. A comida inglesa era mais simples, mas de sabor agradável.

Após saciar a fome, pegou Yuki e resolveu voltar para casa. Talvez estivessem preocupadas por ela sair sozinha. Pediu informações a pessoas para saber onde pegar o ônibus da volta, coisa que foi simples de fazer. Enquanto voltava para o apartamento, teve uma sensação de dejà-vu, mas resolveu ignorar.

Não demorou muito a chegar, mas para sua surpresa, o apartamento ainda estava vazio. O bilhete estava no mesmo lugar, sinal de que Haku e Kasumi não haviam estado em casa. Deitou-se no sofá, segurando Yuki e acabou pegando no sono.

- Haku-chan, “Lesrie” ainda está dormindo! – Kasumi saiu do escritório pisando nas pontas dos pés, com medo de acordar a hóspede.
- Kasumi, o nome dela é LesLie. Deixa ela dormir um pouco mais, andamos muito ontem.
- Tá! Tá!

As horas passaram, e finalmente Leslie se levantou. Ainda sentia o gosto do chá na boca.

- Finalmente, “Sleeping Beauty”! Já ia procurar um príncipe. – Haku, enquanto lia um livro.
- Há-há, muito engraçado! Nem deve ser tão tarde...
- Na verdade, é sim, L-chan. Já passa das três.
- Três?? Dormi demais quando voltei, então.
- Voltou? Voltou de onde?
- Ué, como assim? Não leram meu bilhete?
- Que bilhete, L-chan? – Kasumi, com tom de voz curioso.
- Ué, o que eu deixei na mesa, hoje de manhã!
- Hoje? Não havia bilhete algum na mesa. – Haku, ainda lendo, mas agora tomando café.
- Como não? Eu deixei lá antes de sair!
- Você passou o dia todo dormindo, L-chan.
- Não! Eu até comprei uma boneca! – Leslie correu até o escritório, e voltou segurando Yuki. – Viram? Comprei a Yuki numa loja chamada “Old-stories”, hoje cedo! – Mostrou a boneca para ambas Kasumi e Haku.
- Mas Leslie, Kasumi e eu ficamos em casa a manhã toda. Você definitivamente não saiu. Bonita boneca.
- Não saiu mesmo, vai ver você sonhou.
- Só tem um problema: a Old-stories existe mesmo, vou lá de vez em quando. Conheço a dona. – Kasumi e Leslie arregalaram os olhos. – Ela tem várias bonecas assim lá.
- Eu saí, sim! Até tomei chá com a Herriett!
- Herriett? O nome da dona é esse! E ela sempre oferece chá. Quer me explicar como você sabe isso tudo se nunca te levamos lá?
- Credo, tô ficando com medo, já! – Kasumi.
- Mas gente! Eu FUI lá! Hoje de manhã! Por que estão dizendo que eu estava dormindo?
- Leslie, caso não tenha se olhado no espelho, você ainda está de pijama.
- Espera! A Dani me ligou quando eu esperava o ônibus, ela pode confirmar!

Leslie correu novamente até o escritório e ligou para Danielle. Assim como as irmãs, ela não havia feito nada do que Leslie achava que havia feito. Ela voltou preocupada para a sala.

- Ela não te ligou, não é? – Haku aproximou-se e pos as mãos nos ombros de Leslie.
- Não... Eu não entendo...
- Calma, L-chan. Alguma explicação pra isso deve ter. A boneca já não era sua?
- Não. Eu vi as coisas dela, e não havia boneca alguma.
- Então?
- Leslie, hora de conversarmos sobre suas visões, não acha? Creio que você evoluiu pra algum estágio superior.
- Não pode ser isso. Eu sei que saí! Vi os lugares, pessoas...
- Não disse que você não viu ou mesmo saiu. Creio que você fez uma projeção astral. Sabe o que é?
- Pior que sei...
- O que é, Haku-chan?
- Projeção astral é quando sua alma deixa o corpo e visita outros lugares. Muitas pessoas, ou até mesmo todas, tem capacidade pra isso. Leslie deve ter isso bem desenvolvido. Já havia desconfiado por uma conversa que tivemos.

As três sentaram-se.


- Mas, e a boneca?
- Isso eu não sei... Metafísica não é uma das minhas especialidades.
- Gente, eu juro que saí e comprei ela hoje! Até tenho menos dinheiro na carteira!
- Nós acreditamos. Desde quando você tem visões?
- Tem menos de um mês que elas começaram.
- O que você vê, L-chan?
- Vejo a mim, fazendo coisas estranhas. Bizarras, até.
- E alguma visão se concretizou? – Haku era experiente no assunto.
- Não, até hoje. Mas são muito assustadoras. – Leslie pos ambas as mãos sobre a cabeça, afastando o cabelo.
- Bom, você pode confiar em nós, não precisa ter medo de nada. Quanto a boneca, é sua, de qualquer modo.
- Haku-chan tem razão. Vamos te ajudar nisso! – Kasumi avançou sobre Leslie, dando-lhe um forte abraço. Embora assustada e confusa, Leslie sentiu que podia realmente confiar nas palavras de Haku.
- Obrigada, gente! Muito obrigada, mesmo!

Haku ficou calada, mas viu em Leslie situação semelhante a várias que já havia tido em vida. Ficou feliz, estranhamente. Leslie não conseguiu entender o ocorrido. Tinha certeza absoluta de que havia saído do apartamento pela manhã, e tinha Yuki como prova disto.
Como Haku a havia dito que tinha visões e que algumas se concretizavam, ela achou ser esse o caso. Mais tarde, enquanto Kasumi havia ido ao mercado comprar ingredientes pro jantar, Haku aproveitou para ter uma conversa mais profunda com Leslie sobre o assunto.

- Você disse que já teve visões. Como foi a sua primeira? – Haku e Leslie estavam no escritório, pois Haku achava o ambiente mais propício.
- Eu aparecia esfaqueando minha irmã, e depois carregando o corpo pela sala. E o pior: eu ria.
- Vocês costumam brigar?
- Esporadicamente, mas nada nunca sério. Foi estranho ver uma coisa tão bizarra, do nada. – Leslie apoiou os cotovelos na mesa.
- Não será o estopim da briga das duas?
- Haku, sinceramente, não sei. A gente normalmente se dava bem. O “engraçado” é que senti que realmente seria capaz de matá-la.
- Talvez porque você realmente seria?
- Admito que já quis que ela morresse, mas nunca pensei chegar a este extremo.
- Isso não se trata do seu desejo, e sim da sua capacidade.
- Então você acha que eu...?
- Sim, capacidade você tem.
- O que te faz estar tão certa disto? Fora o óbvio...
- Coisas que não percebemos normalmente vêm por visões ou sonhos...
- E, no entanto, você fala disso tão calmamente. Não se assusta mesmo?
- Não, eu já estou acostumada. Por mim...
- Você é tão confiante, sabia? Eu queria ser mais. – Leslie olhou Haku com olhos carentes.

Haku pôs a mãos no ombros de Leslie e disse:

- Você aprende com o tempo. Na sua idade eu tinha tanto medo que ficava trancafiada na biblioteca.
- E como você venceu isso? – Ela segurou a mão de Haku.
- Ligando o botão do “foda-se”. – Sorri.
- Hahaha, eu bem que tento. Mas é foda. Se meu pai estivesse mais tempo presente, talvez fosse mais fácil.
- Agora que você está aqui, é uma boa chance de esquecer as coisas ruins que te afligem.
- Você deve ter mesmo razão. Haha, tem horas que gostaria de ser como a Bella é. Mas desencanada, popular. Namora tem três anos já.
- Ser desencanada, popular, e namorar, não significam estar bem, Leslie. Olha só pra mim, haha... - Bom, você é bem exótica. Alta.
- De certa forma, isso me trouxe uma certa popularidade na escola feminina que eu estudei. Mas também me trouxe problemas, haha, eu vivia batendo numas garotas folgadas que encrencavam comigo...
- Nunca tive que brigar, mas as patis sempre tiveram cisma comigo. Achavam que os caras davam mais atenção pra mim do que pra elas, haha.
- Então, de certa forma, você era popular. Ser diferente te faz popular, na maioria das vezes.
- Na faculdade eu posso dizer que sim. O público é mais diversificado também. Mas sempre tem uma otária mal-comida.
- No meu caso, não tinha, porque a galera tinha medo de mim.
- É, sendo alta assim, qualquer um teria. Hahahaha.
- Minha altura era o de menos. Eu lutava Kenjutsu.
- Ken o que?? – Indagou.
- Luta com espadas.
- Que legal! Sempre quis ter uma Katana!
- Eu tenho a minha primeira Katana. – Haku se entristeceu, porque lembrou de sua falecida mestra.
- Se não quiser falar disso, mudamos de assunto.
- Vamos comer os cookies que fizemos esta manhã. – Haku sorriu.

As duas foram para a cozinha, e esqueceram-se dos assuntos comentados no escritório. Haku era boa cozinheira, e os cookies estavam muito bons. Leslie lembrou-se de “sonhar” com elas os cozinhando durante a madrugada. Sentiu-se um pouco estranha, mas resolveu relevar.

Sentaram-se, e Haku começou a olhar Leslie firmemente. Ela ficou um pouco constrangida com os olhares, mas tentou ser natural.

- Os cookies ficaram bem gostosos, mesmo. – Leslie, enquanto pegava alguns.
- Obrigada. A propósito, você ainda está com o cheiro do chocolate que caiu hoje.
- Chocolate? Qual?
- Um que você derramou enquanto me ajudava.
- Nossa, não lembro disso. Onde derramei? – Leslie, enquanto olhava se sua roupa tinha manchas.
- Na sua mão...
- Na minha mão? Mas eu lavei elas, cheira. – Leslie estendeu ambas as mãos até Haku. Haku puxou a manga da blusa que Leslie vestia e mostrou que ainda havia resquícios.
- Nossa! Eu nem havia reparado! Vou lavar o braço.
- Não se preocupe. Este chocolate é forte, mesmo.

Haku então foi tomar banho, pois ainda precisava trabalhar. Leslie voltou para o escritório, e ficou fuçando na internet. Kasumi? Demorou a voltar, pois o mercado estava cheio. Quando voltou, trouxe algumas sacolas e as deixou na cozinha.

- L-chan, desculpa a demora. O supermercado estava cheio. – Kasumi, cansada por carregar várias sacolas.
- Ah, não tem problema. Fiquei conversando com Haku. Ela é sempre tão segura de si?
- É sim, sempre!
- Haha, ela nunca hesita? Nunca mesmo?
- Nunca a vi hesitando... Nem errando...
- Ela é bonita, embora estranha.
- É, ela é um ouji mesmo.
- Entendo. Bom, tem algum banheiro que possa usar? Queria tomar banho.
- Pode sim. Tem aquele ali do corredor ou até mesmo o do quarto da Haku, que tem banheira.
- Banheira, é? Seria que ela se importaria se eu usasse?
- Claro que não! Pode ir lá!
- Bom, se você diz...

A curiosidade da loira foi maior que o medo de uma possível repreensão. Leslie pegou suas roupas e foi para o banheiro do quarto de Haku. De fato, havia uma banheira nele. Grande, espaçosa, branca, com a bancada feita em mármore. Ela tirou as roupas e ligou a água, testando a temperatura com as pontas dos dedos.

A água estava numa temperatura agradável, e enquanto se preparava para entrar, foi surpreendida.

- Ah... Leslie! Desculpe! Eu não sabia que você tinha vindo aqui. Com licença...
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Que susto caramba!!! – Cobriu o corpo com as mãos, envergonhada.
- Calma... Não tô vendo novidade alguma, haha. Só feche a porta da próxima.
- ...

Leslie ficou esperando Haku sair, sentindo-se uma idiota por não ter fechado a porta. Como a água era muito mais convidativa e conveniente, ela entrou na banheira e tratou de afundar a cabeça na água, para ficar olhando o efeito que a água dava por cima dela.

Fazia isto desde pequena, para o desespero de Bella, que sempre a repreendia.

- Porra. Eu não devia ter deixado a Haku me ver assim... – Pensou por alguns segundos, enquanto esfregava ambas as mãos num sabonete com aroma de morango e champanhe. – Bom, ela é mulher também, então não é nada absurdo... Ai! Não comece a pensar besteiras, Leslie! Liga o cérebro, porra!

Ela continuou seu banho, mas não conseguiu tirar o fato de Haku tê-la visto nua da cabeça.

- Haku-chan, você viu? – Cutucando os ombros de Haku.
- Vi o que, Kasumi?
- A... – Risos. – Você sabe quem! – Mais risos.
- Sim, vi. E?
- Corpão, hehe.
- Ah, Kasumi, pare de xeretar.
- Ué, tô errada?
- Não.
- Então! Não imaginava que ela era assim, haha.
- Kasumi, se tá a fim dela, ela ainda tá no banheiro. – Levantou uma sobrancelha.
- Eu não sou lésbica! Só a achei bonita.
- Hummm.

Kasumi ficou bastante impressionada com as formas generosas de Leslie. Tanto é que quando ela voltou para a sala, Kasumi se dividiu entre duas sensações distintas: ou corava de vergonha ou começava a rir. Leslie não entendeu exatamente o porquê da situação, mas aquilo não a preocupou. Ela não imaginava que ambas as Hakushima haviam visto suas formas tão desnudas.

Meio constrangida pela presença de Haku, resolveu tentar relaxar. Sentou-se ao lado dela no sofá, e ficou observando o que ela tanto lia. O ar londrino havia deixado-a muito menos defensiva do que normalmente costumava ver. Vez ou outra dirigia o olhar diretamente para Haku, que, mesmo notando, mantinha a face voltada à leitura.

- L-chan?
- Oi.
- Você gosta de ler?
- Mais ou menos. Por causa da faculdade, tenho que ler muito, e os livros normalmente são chatos.
- Onde você faz faculdade? Não lembro de ter comentado. – Haku, rascunhando mudanças nos textos que lia.
- Na Humboldt.
- Nossa, faculdade secular. Quando morei em Berlim, sempre ouvi dizer que ela era bem puxada. - É mesmo. Os professores são muito exigentes com a gente. Tem horas que me sinto num campo de concentração, haha.
- Ah, mas faculdades renomadas tem de ser exigentes pra manter sua excelência acadêmica.
- Sim, eu sei. Mas a rotina é bem cansativa.
- E você cursa o que, L-chan?
- Psicologia.
- Hummm, temos uma futura sucessora de Freud aqui, Kasumi. Você já tem quem te trate, haha. - Baka-sama!
- Hahahaha, que isso. Por que você pega tanto no pé da Kasumi, Haku?
- Porque ela sempre faz caras engraçadas.
- Faço nada!
- Faz sim.
- Erm, pior que faz.
- Humpf!

Após um breve silêncio:

- L-chan?
- Fala, Kasu.
- Posso fazer uma pergunta pessoal?
- Pode, claro.
- Você tem namorado?
- Eu? Não. Nunca tive.
- Sério??
- Sim... Mas por que a curiosidade?
- Só pra saber. Você é bem bonita.
- Valeu. – Sem graça. – Você também é. Tem algum namorado no Japão?
- Já tive, mas agora não.
- Quem foi o louco?
- Não é da sua conta!
- Ahá! Então você abalava os corações alheios, hein?? Safada!
- Haha, que nada... Tive um só.
- Já teve mais que eu, então...
- Bom, você é mesmo bonita. E loiras chamam atenção. É solteira porque quer?
- Haku, não sei te responder. Mas acho que está mais pra sim do que pra não.
- Não pensa em ter?
- Não sei... Talvez não agora.
- É bom, L-chan. Deveria mudar de idéia.
- Bom, quem sabe mais adiante...

A conversa se estendeu até o jantar. Kasumi resolveu não preparar nada muito oriental. A rotina do apartamento praticamente não se alterou com a chegada de Leslie. As três entrosaram-se rapidamente, então facilitou na divisão das tarefas. Não demorou muito tempo e Leslie já falava um inglês mais “decente”, nas palavras da mesma.

O ocorrido do banheiro fora praticamente suplantado naquela mesma noite, mas deixou um certo resquício de desejo no ar, que juntou-se á névoa típica londrina.