quinta-feira, 28 de maio de 2009

Die Nebelstadt

Londres, 22 de Março de 2009, 11:00 da manhã: Die Nebelstadt

Leslie havia ido dormir tarde, então custou a levantar-se “da cama”, mesmo com Kasumi por cima dela, empurrando-a e falando. Seus olhos abriram lentamente, e só puderam, vagamente, enxergar os contornos dos braços de Kasumi sobre seus ombros. Leslie acordou com gosto de serragem na boca, mas estava feliz por ter conseguido dormir bem.

Ela mal levantou e Kasumi a arrastou para a cozinha, onde Haku tomava café. Deu um bom dia rápido e terminou a xícara. Kasumi havia preparado alguns quitutes reforçados para o desjejum, pois o dia seria longo. Ela adorava passear por Londres, até parecia ser nativa de lá.

- Leslie-chan, tem tantos lugares que quero te mostrar! Londres tem muita coisa legal pra ver e fazer! – Kasumi fazia gestos, como demonstrando o quão grande era Londres.
- Haha, eu imagino. Sempre quis vir aqui, mas nunca pude. O bom é que agora poderei aproveitar bem.
- Kasumi tem razão. Londres é uma cidade ótima. Você vai gostar. – Haku estava totalmente adaptada à cidade. Sentia-se em casa.
- A gente podia primeiro ir ao Big Ben!
- Kasumi, pra que ir primeiro a um relógio velho? Temos lugares melhores pra ir. Vê se come de boca fechada. – Haku sempre repreendia Kasumi pelo seu jeito desleixado de ser. Ela não se importava muito.
- Calma, Kasumi! Eu não vou conseguir conhecer Londres toda em um dia! Hahaha. Não precisa dessa pressa toda!
- Eu sei! Eu sei! É que estou ansiosa pra sair!
- E quando é que você não está ansiosa, Kasumi? – Haku olhou a irmã com olhos destruidores.
- Baka! Pare de pegar no meu pé! – Kasumi cruzou os braços e franziu os lábios, Leslie riu com a cena.
- Eu ainda preciso ver umas coisas. Preciso avisar meu pai, também.
- Onde seu pai está? Leslie-chan? – Kasumi, enquanto comia um bolinho.
- Em Paris. Está fechando uns negócios lá.
- É verdade que você tem uma irmã mais velha?
- Kasumi, larga de ser intrometida. – Haku, enquanto acendia um cigarro.
- Não posso conversar mais?? – Haku e Leslie riam das caras engraçadas que Kasumi fazia quando repreendida.
- Sim, tenho uma. Se chama Bella. Mas ela é bem diferente de mim. Ruiva, pouco mais baixa, cabelos compridos. Teimosa feito uma mula.
- Kasumi, você achou uma companheira perfeita agora!
- Haku baka!
- Desde que saí de Berlim, não falei com ela. Temos nossas diferenças.
- Que chato. Faça as pazes com ela.
- Bom, eu preferia falar de outra coisa...

Leslie preferiu não alongar o assunto, então voltaram a falar sobre o que fariam.

- Uma boa idéia seria começarmos por Camden. Tem muita coisa interessante por lá.

- É mesmo, Haku-chan. “Lesrie” já está no clima até.
- “Lesrie”? Hahaha. Nunca me chamaram assim!
- Ah, é que no Japão não existe a letra L, daí eu enrosco às vezes.
- Como por exemplo, enrosca as pernas nas cadeiras e cai de cara no chão.
- Ahhhhhhhhhhh!
- Ei, uma amiga minha me chama de “L”, e ela é japonesa também.
- “L”? Por causa do Death Note?
- Sim. Eu adoro o mangá. Daí, como meu nome começa com L, ela começou a me chamar assim. Se quiser, me chama assim, também.
- L é bom porque é curto. Bom, vamos? – Haku, se levantando da mesa.
- Vamos! – Leslie e Kasumi responderam, simultaneamente.

Kasumi e Leslie foram pegar apetrechos para o passeio, tais como câmeras e mochilas. Haku as esperou à porta do apartamento. Não demorou muito e as três já se dirigiam à garagem do prédio. O dia estava bonito, com o tradicional céu cinza londrino.

Pegaram o carro e foram rumo à Camden Town, bairro etnicamente bem diversificado da Inglaterra. Haku procurou onde estacionar, e as três seguiram a pé. Punks, góticos, metaleiros, emos... Todo o tipo de tribos se via ali. Leslie pegou sua câmera e começou a fotografar. Sentiu-se totalmente à vontade, já que as pessoas vestiam-se de maneira similar a ela. Haku entrou em uma loja de roupas, enquanto Kasumi e Leslie ficaram olhando cintos em uma loja menor. Leslie comprou um de rebites, pois o que tinha havia rasgado, descuido dela ao sair do carro de Bella, certa noite.

Comprou também óculos estilo retrô, e a preços relativamente baixos. Andaram por todo o bairro, entrando em todas as lojas. Quando acabou o passeio, já era fim de tarde.

- Haku-chan! Já são quase seis horas! – Kasumi se espantou ao ver as horas no relógio.
- Gostariam de voltar pra casa? – Haku, enquanto olhava o movimento.
- Bom, não sei quanto a vocês, mas eu estou exausta! Andei tudo o que podia andar, e adorei! Ainda comprei umas coisas que queria. Preços bons os daqui. – Leslie, enquanto olhava suas sacolas.
- Ok. Amanhã a gente passeia por outros lugares.
- Sendo assim, vamos pra casa.

As três se dirigiram até aonde Haku havia estacionado o carro, menos de uma quadra de distância do local. Assim que chegaram em casa, Kasumi quis ver todas as sacolas que Leslie carregava. Olhou todas, uma-a-uma, e quis que ela experimentasse tudo. Leslie adorou a idéia, e acabou experimentando todos os acessórios que comprou. Haku observava um pouco mais distante, mas também dava palpites.

Ela sempre fora discreta, mas havia um certo entusiasmo em seus olhos quando olhava Leslie trajando os novos acessórios. Nem ela, nem Kasumi perceberam nada.

- Kasumi, seja útil nesta vida e faça algo pra gente comer. – Haku.
- Olha, tô com muita fome também!
- Tá, tá, vou fazer algo pra gente, suas esfomeadas!

Kasumi foi para a cozinha enquanto Leslie e Haku ficaram conversando. Falaram algumas coisas em alemão, ficaram vendo as compras. Enquanto isso, na cozinha, Kasumi preparava Ramen, sua especialidade, e Yakissoba também. Não demorou muito e o cheiro da cozinha começou a invadir a sala, atiçando os apetites.

- Está pronto! Venham comer! – Kasumi gritou da cozinha.
- O cheiro está bom! Minha barriga ronca!
- Barriga? Até posso lavar uma roupa nela. Isso porque você disse que odeia academia...
- Haha, eu vou às vezes, mas sempre tem uma mané secando a minha bunda, urgh! – Leslie, já sentando-se à mesa.
- Ah, normal isso. Sempre secam a feiúra da Kasumi.
- Não acho a Kasumi nada feia! – Leslie olhou Haku com uma cara de reprovação.
- Viu? Viu? Só você que acha isso! Baka! – Kasumi mostrou a língua para Haku. Ela nem ligou. Continuou comendo.

Todas de estômago cheio, Kasumi e Leslie dividiram a tarefa de lavar/secar a louça, mas se divertiram, uma jogando água na outra. Leslie, embora recém chegada, sentia-se em casa. Haku aproveitou para tomar banho.

Já mais tarde, durante a noite, Haku foi para o escritório, pois precisava revisar alguns textos. Ela trabalhava como revisora em uma revista local, além de serviços de consultoria para empresas de publicidade. Leslie ficou assistindo Kasumi jogar “Guitar Hero”, divertindo-se com as caras engraçadas que ela fazia. Lembrou-se de Danielle. Como as três estavam cansadas pelo longo dia de passeio, acabaram indo dormir.

domingo, 24 de maio de 2009

Willkommen, Ausländer!

Londres, 21 de Março de 2009, 09:00 da manhã: Willkommen, Ausländer!


- Nossa! Finalmente cheguei! Não agüentava mais ficar sentada! – Finalmente Leslie chegava a capital inglesa. A viagem não era das mais extensas, mas ficar parada muito tempo a incomodava.

O vôo foi tranqüilo, exceto por um rapaz que insistia em olhar por dentro do decote da blusa da garota. Leslie não deu muita importância para a insistência do rapaz, que aparentava uns quinze anos. No vôo, não teve oportunidade de comer algo, então estava faminta.

Como procedimento de praxe, passou pela alfândega, mostrou seu passaporte, retirou suas malas, que estavam pesadas, e seguiu. Empurrar o carrinho do aeroporto, que estava bastante movimentado, foi fácil. Leslie esperava encontrar alguém para levá-la até sua nova moradia, mas não fazia idéia de como seria esse “alguém”.

Enquanto andava pelo saguão, procurava por alguma placa com seu nome escrito. Não demorou muito, e se deparou com uma figura exótica segurando placa com seu nome. De longe, não conseguiu ter certeza se a pessoa era homem ou mulher, apenas notou a estatura e a pele branca. Do lado dela, havia uma garota.

As duas eram, respectivamente:

Uma garota de aproximadamente a mesma altura de Leslie, olhos verde-claros, cabelos negros e curtos. Fazia uma cara de aflita, como que esperasse muito a chegada de alguém. Tinha um piercing no nariz, corpo bonito.

A outra pessoa era magra, alta. Estava tranqüila segurando a placa, enquanto fumava um cigarro. Tinha snakebites, usava creepers, cabelos roxos e olhos incrivelmente cinzas. Trajava uma camisa com Pedo Bear estampado. As duas conversavam.

Leslie sentiu um frio na barriga ao ver sua nova “família”, e respirando fundo, resolveu se aproximar. Parou em frente as duas, meio sem jeito. As palavras custaram a sair.

- H-hi... Nice to me-eet you. – Estendeu sua mão.
- Me too. Kohaku. – A estranha figura retribuiu e apertou a mão de Leslie.

Depois, ela fez o mesmo com a outra garota, mas já mais aclimatada.

- Hi, nice to meet you. – Colocou seu melhor sorriso no rosto.
- Hi! How are you? My name is Kasumi. I was to be the exchange student, but I decided to stay here, hehe. – A garota respondeu, alegremente.

Apresentações feitas, as três seguiram rumo à saída do aeroporto. O tempo em Londres estava mais quente do que em Berlim, mas pouca coisa. A sensação térmica devia ser de uns 18 graus. Foram até um Honda Civic preto, e seguiram rumo ao apartamento de Kohaku. No caminho, a garota de cabelos curtos, Kasumi, ficou conversando com Leslie sobre como era a Alemanha e o porquê de ter desistido de viajar. A outra, Kohaku, manteve-se minimalista no que dizia. Aparentava ser bastante séria.

Elas moravam em um edifício alto, na Arlington Road, não muito distante do centro. O apartamento ficava no quarto andar, mesmo os japoneses considerando este um número de azar.

No elevador, Leslie observou Kohaku, sob alguns olhares curiosos de Kasumi. Kohaku era uma moça bastante alta, pouco mais de vinte anos, magra e aparentava bastante segurança. As três desceram já de cara para a porta do apartamento. O apartamento, basicamente, era em preto-e-branco. Móveis modernos, impecavelmente limpos.

Leslie carregava uma mala, Kohaku e Kasumi as outras duas. Decidiram que ela dormiria no escritório, pois o apartamento, embora grande, dispunha de apenas um quarto, que era dividido por Kohaku e Kasumi, que eram irmãs. Nada semelhantes, por sinal.

Meio sem graça, colocou suas coisas no closet, na parte de Kasumi, e tratou de se familiarizar com as duas.

A primeira noite no apartamento não foi das mais fáceis. Estar ao lado de pessoas de costumes diferentes não era novidade, mas era fora de seu país, de tudo que era familiarizada. Ao menos ela se sentia bem-vinda. Leslie observava como Kohaku e Kasumi se comportavam, pois queria se enturmar o quanto antes, quebrar o gelo. Kohaku despertava certo medo nela, pela aparência sempre firme e os olhos frios como icebergs. Mesmo sentindo-se intimidada por ela, via certa beleza nos cabelos roxos, estranhamente naturais, e nos mesmos olhos cinzas que ela ostentava. Kasumi já era mais expansiva, Leslie e ela já conversavam sobre diversos assuntos, tais como, moda, paixão que Leslie também tinha, e música, igualmente apaixonada por.

Kasumi ficou de levar Leslie a lugares importantes da cidade, ser sua guia turística. Também ficou muito interessada pela tatuagem que Leslie tinha na costela, uma flor de lótus.

Kasumi e ela ficaram conversando até altas horas da noite, quando Kasumi, já caindo de sono, resolveu se deitar. Kohaku se disse notívaga, então era normal que passasse as noites acordada, muitas vezes apenas observando o céu costumeiramente cinza londrino. Ela vestia uma blusa regata, e pelas aberturas Leslie conseguiu ver um Kanji que ela tinha tatuado nas costas, era “Shi”, morte em japonês. A convivência com os Nana a deixou bastante inteirada sobre a cultura do país, mas não evitou que fosse surpresa pela presença do número quarto no andar do apartamento, número do mesmo e na tatuagem nas costas de Kohaku.

- Quatro... Por que você gosta tanto desse número? Que me lembre, os japoneses consideram um número de azar. – Leslie indagou, enquanto observava a vista pela janela.
- Não gosto dele. Na verdade, ele me persegue. – Kohaku respondeu, enquanto acendia um cigarro.
- Como assim “te persegue”? – Leslie, afastando-se da fumaça do cigarro.
- Quando me mudei pra cá, este era o único apartamento disponível. Também nasci no dia quatro de abril. Várias coisas me envolvem com este número, chega a ser engraçado... Ah, e sobre a tatuagem: eu preferi tatuar a única certeza que temos.
- Nossa, realmente, esse número deve ter alguma ligação com você. – Como Leslie já havia experimentado algo sobrenatural, não achava impossível haver realmente alguma conexão.
- É, ele tem. Até meu apelido tem quatro letras. Pode me chamar de Haku.
- Ok, então, Haku. Seus olhos... ...São naturais? Eles me assustam, haha. – Leslie, tentando quebrar o gelo.
- São sim. Os da Kasumi também. Toda minha família tem olhos claros. Deve fazer uns quatrocentos anos que isso acontece... Vai entender... – Haku, reticente.
- Nossa, sua família tem quatrocentos anos? Realmente assustador! – Mexendo no piercing do lábio.
- Dos arquivos que minha família tem, ela deve ter uns oitocentos anos. Quem sabe em outra vida eu dei um rolê com Buda ou Jesus? – Fumando.
- Nossa, haja registro histórico. Sua família deve ter sido muito ativa na época do Japão feudal, então. – Sentou-se num sofá.
- Sim. Pelos registros bizarros que deixaram, teve uma época que a família foi composta por um casal de irmãos, e um deles lutou contra um poder maligno de uma torre. Os caras acharam que o registro era pra escrever mangá. – Jogando as cinzas num cinzeiro.
- Poder maligno? Você crê nessas coisas? – Leslie lembrou de suas visões, outra vez.
- Ah, nisso, sim. Sei por experiências não muito legais.
- Então você acredita ser possível uma pessoa ter visões?
- Sim, eu tenho umas bem severas.
- Erm, que tipo? Só por curiosidade. – Infelizmente, Leslie não fazia muito o tipo discreta, quando ficava curiosa com algo.
- Misturam realidade e fantasia, meu passado e futuro. Outra pessoa e eu. Infelizmente algumas se tornam reais, eu acabo sentindo coisas da visão.
- E isso não te assusta?
- Não, tô de boa. – Haku olhou Leslie com olhos tranqüilos.
- Nossa, você realmente é bem calma.
- Na medida do possível, sim. Não me recordo da última vez em que fiquei nervosa, isso se já fiquei alguma vez.
- Você e Kasumi são totalmente diferentes. Ela estava tão nervosa no aeroporto, acho que até mais do que eu... – Leslie sentou mais na frente do sofá, curvando o corpo para a frente e segurando ambas as mãos.
- Kasumi e eu somos irmãs “recentes”. Ela e eu fomos separadas a vida inteira, até que ela teve a iniciativa de me procurar pela Inglaterra.
- Entendi. Vocês parecem se dar muito bem, ao contrário de minha irmã e eu.
- É, tirando o fato de ela ser irresponsável e atrapalhada, nos damos bem, sim. – Acendendo outro cigarro.
- Hahaha, ela é bem alegre, gostei bastante dela. Lembra uma amiga minha, que também é japonesa.
- Japonesa? Normalmente garotas japonesas são bem animadas, mesmo. Na sua idade eu não tinha muitos motivos para ser animada... ...Passei por um regime estudantil bem severo. Você é alemã, né?
- Sou nipo-germânica, por mais estranho que possa parecer. Nasci na Alemanha, mas minha mãe era japonesa, então tenho uma certa ligação com o país desde o nascimento. Estranho que convivo com várias pessoas japonesas desde que me entendo por gente.
- Que legal. Então acho que você já deve manjar os costumes. Não vai estranhar o que a gente come aqui, também? E a propósito, eu falo alemão fluente, caso você se sinta mais confortável.
- Sério? Já deve ter ido a Alemanha várias vezes, então. Ah, meus vizinhos são japoneses, e somos todos bem próximos. Comida japonesa pra mim, é normal. Prefiro falar em inglês mesmo, senão vou continuar falando “inglês macarrônico”. – Riu.
- Eu já morei em Berlim. Depois que minha namorada morreu, me mudei pra cá. Adoro a Alemanha.
- Namorada? Você é bi? Minha irmã é. Pelo visto, você já morou em tudo quanto é lugar! Deve ser o máximo isso!
- É, eu sou, sim. Eu já morei na Alemanha, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, e atualmente, aqui. Ah, e claro, Japão. Nasci em Kyoto.
- Kyoto? Já fui lá uma vez, mas era bem pequena. Como minha mãe era japonesa, íamos lá duas vezes por ano, visitar a família.
- É um lugar muito bonito. Aconselho você a ir lá mais vezes. Se quiser dar uma passada na casa da minha família lá, é só falar que me conhece e procurar a família Hakushima.
- Não é má idéia. Assim que eu tiver um tempo, farei isso. – Olha o relógio na parede. – Nossa, já são duas da manhã! Vou dormir, estou morta de sono! Boa noite, Haku.
- Boa noite. Cuidado com a calcinha de ursinho jogada no corredor.
- Pode deixar! Leslie então se dirigiu ao banheiro, escovou os dentes e tratou de ir dormir.

Dormir num colchonete não era a coisa mais agradável do mundo, mas ao menos ela ficou com o escritório à sua disposição. Pôde aproveitar para entrar na internet e mandar e-mails para seu pai, Danielle e outros amigos. Até pensou em escrever para Bella, mas a mágoa ainda falava mais alto. Como Bella também não havia mandado e-mail algum, resolveu deixar a coisa do jeito que estava.

Leslie tinha o hábito de dormir cedo, por causa da faculdade, mas como a mesma encontrava-se em recesso, pôde aproveitar e passar mais tempo de sua primeira noite na Inglaterra acordada. Saiu do escritório, vestindo um pijama e aproveitou para dar uma olhada mais profunda no apartamento de Haku. Naquela altura já passava das 3 da manhã, e tanto Haku quanto Kasumi já haviam ido dormir.

Kasumi havia dito que levaria Leslie para um “tour” pela cidade no dia seguinte, então ela ficou ansiosa para que a hora do passeio chegasse.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

London Reise

Berlim, 21 de Março de 2009, 06:30 da manhã: London Reise

Duas semanas se passaram após o incidente com Bella. Desde aquele dia, Leslie ficou vivendo com os Nana, só voltou para casa para pegar roupas, material da faculdade, dinheiro, entre outras coisas pessoais. Neste tempo, não viu a irmã, nem mesmo na faculdade. Estava chegando o dia de Leslie viajar para Londres, para fazer intercâmbio, pois necessitava aprimorar seu inglês. Tudo idéia de seu pai, Johan, que pretendia preparar as filhas para que um dia pudessem assumir papéis na empresa da família, a ALV, empresa do ramo publicitário.

- L, tem certeza que se sente bem para viajar? – Danielle, enquanto ambas iam para a Humboldt de carro.
- Tenho, sim. Desde aquele dia, eu não tive mais visões, acho que a estupidez da Bella acabou me sento útil. – Leslie respondeu, enquanto apoiava a cabeça na janela do carro de Dani.
- Quanto tempo ficará fora? Vou sentir sua falta.
- Haha, eu volto, boba. Bom, o programado é de quatro meses, vai ser rápido. Fora que não terei de aturar a Bella também, o que é mais um ponto positivo.
- Falando nela, não a tenho visto, nem na faculdade.
- Eu prefiro não vê-la, ainda mais depois do que ela me disse. – Ressentia-se bastante.
- Bom, depois de todas as babaquices que ela disse, não é pra menos. Droga! Está cheio de carros! – Danielle teve dificuldade para estacionar o carro, um Honda Civic preto.
- Ah, foda-se ela! Tenho mais com o que me preocupar. – Leslie, já descendo do carro.
- Eu sei, mas mesmo assim, estranho ela sumir.
- ... – Leslie preferiu encerrar o assunto ali. As duas foram para suas respectivas aulas, num dia bem típico de inverno alemão.

As pessoas todas estavam encapotadas, o frio era relativamente intenso, perto dos zero graus. O dia passou depressa, mesmo com todas as provas. Verdadeiramente, a mente de Leslie já estava fora dos limites fronteiriços alemães, já “respirava” ares londrinos. Os Himmenfeld costumavam viajar pela Europa e às vezes pela Ásia e África. Na volta pra casa, conversaram sobre o que Danielle gostaria de receber de presente da viagem. O clima na conversa era bom, sinal de que tudo havia sido superado.

- Ah, vejo que minhas duas universitárias já voltaram! – Yuna recebeu ambas, com um sorriso cativante.
- Olha, nem vi as horas passarem! Mãe, o dia hoje voou! – Danielle sempre voltava empolgada para casa, cursava Design.
- É mesmo. Nem parecia semana de provas! – Leslie sentia-se feliz, muito pela viagem, muito por não ter mais visões. Ela não contou para os Nana, mas passou vários dias em claro, com medo de ter pesadelos sobre o que viu.
- Fico feliz que tiveram um dia proveitoso! Como hoje é sexta, vocês não vão precisar acordar cedo amanhã. Dani, já que chegou, me ajude na cozinha, ok? Logo seu pai chega do hospital, e estará faminto!
- Certo, oka-chan.

Yuna e Danielle foram para a cozinha, enquanto Leslie ficou brincando com Yumi, no carpete da sala. Yumi tinha pouco mais de sete meses de vida, e era um bebê bastante “energético”. Ficaram se divertindo com alguns cubos. Não deu muito tempo, e Yumi adormeceu nos braços de Leslie.

- Yuna, vou levar Yumi pro quarto, ela dormiu! – Leslie gritou da sala. Por mais estranho que possa parecer, não acordou Yumi.
- Tudo bem! – Veio o grito da cozinha.

Leslie subiu com Yumi, e a colocou no berço. O quarto de Yumi era em tons pasteis, brinquedos espalhados pelo chão. Sempre que entrava nele, Leslie ficava pensando em como seria ser mãe. Pensava também em sua mãe. O cheiro de comida inundava a casa. Tanto Yuna quanto Danielle eram conhecidas por serem boas cozinheiras. O aroma que preenchia toda a casa não deixava isso à prova. Não deu muito tempo e Hidetoshi chegou. Hidetoshi era médico havia quinze anos, e era muito competente no que fazia. Embora fosse um homem sério, era muito apegado à família e um pai/marido dedicado.

- Olá? Cheguei! Que cheiro bom! – Hide, deixando sua maleta num quanto próximo da porta, junto de guarda-chuvas e capas.
- Hide! Chegou na hora! O almoço já está pronto! – Yuna chamou Hide e Leslie para comerem. A família sempre almoçava junta, era como um ritual sagrado.
- Yu-chan, você se superou! Nunca comi um peixe tão saboroso. – Hide se deliciava com a comida, sempre farta.
- Obrigada, querido, mas o mérito maior é da Dani, ela preparou o peixe.
- Hehe, que bom que gostou, pai!
- Dani, está realmente delicioso, parabéns!

Leslie apenas observava a conversa dos Nana, enquanto comia. Embora ela não comentasse, era claro que sentia falta da vida familiar. Como conheceu muito pouco sua mãe, sempre sentiu uma lacuna na casa, que Bella, sem muito sucesso, tentava preencher. Ela não tinha muitos parentes, só uma tia distante e poucos primos.
Normalmente a família era sempre composta por Johan, Bella, e ela.
Depois de almoçarem, cada um lavou seu prato. Era comum a família toda se envolver nos afazeres domésticos, até se divertiam com isso.

- Vou ver Yumi! – Hide subiu as escadas apressado, Yumi o enchia de alegria.

Yuna, Leslie e Danielle foram para a sala, e ficaram conversando. Falaram bastante sobre a viagem de Leslie, já que faltava apenas sete dias para o embarque.

- Acha que se dará bem em Londres, Leslie? – Yuna perguntou, enquanto lia uma revista.
- Eu creio que sim. Meu inglês é mediano, mas consigo me comunicar. Só espero que a família seja legal.
- Família, é?
- Sim, se chamam Hakushima.
- Putz, só espero que não venha uma pessoa chata pra sua casa! – Danielle pensou em dizer o contrário, por causa de Bella, mas resolveu ser politicamente correta.
- Haha, se vier, vai ter que aturar a Bella. Pior castigo não há!
- Rs, não fale assim, Leslie-chan. A Bella vai sentir sua falta, tenho certeza disso.
- Ah, Yuna, depois do que ela disse aquele dia, eu creio que não tenho mais irmã. – Séria.
- L-chan, não fale assim, as coisas vão voltar ao normal...
- Ahhh!! Eu quero presentes! Não se esqueça da lista que fiz! – Danielle sacudiu a amiga.
- Aiiiiiiii! Tá bom! Tá bom! Não vou esquecer! – Descabelada.
- Meninas, vocês me divertem! Hahahaha! – Yuna se divertia com as cenas engraçadas protagonizadas por ambas.

Em meio às risadas, Hide voltou do quarto de Yumi. Sempre ficava com os olhos brilhando.

- Ela parece um anjo dormindo! – Olhos cintilantes.
- E você parece um babão! – Yuna ria. – Ela lembra muito a Dani quando pequena.
- Lembra mesmo. Faziam a mesma expressão enquanto dormiam. – Hide pega o jornal.
– Ah! Tenho uma coisa pra te dar, Leslie! Vou pegar! – Subiu as escadas novamente, deixando a garota com um olhar curioso. Yuna e Danielle fizeram cara de quem sabia de nada.

Poucos minutos depois, Hide voltou.

- Tome. Achei isso uns dias atrás, enquanto procurava uns documentos. – Hide passou uma foto bastante antiga de Leslie com sua mãe, enquanto ainda bebê de colo.
- Nossa! É a minha mãe! De quando é essa foto??
- Você devia ter uns cinco meses, mais ou menos. Fui eu quem a tirou, lembro bem desse dia. Lembra, Yuna?
- Claro, foi um dia muito gostoso, mesmo. Nós todos fomos fazer um piquenique, seus pais estavam muito felizes aquele dia.
- Nossa, eu nem lembrava direito do rosto dela. – Leslie ficou com lágrimas nos olhos.
- Sua mãe era muito bonita e alegre. Seu pai também, embora meio carrancudo.
- Mas só eu estou com minha mãe...
- Sim. Na verdade, são duas fotos. A outra é o seu pai segurando a Bella, mas ela estava irritada aquele dia, foi difícil fotografá-la.
- Verdade, Hide-san. Lembro que ela estava birrenta. Haha, não mudou nada, aquela teimosa.
- Não lembro quase nada dela... – Torceu os lábios.
- É porque você era muito pequena, não tem como lembrar mesmo.
- Puxa Hide, obrigada! Vou guardá-la bem!
- Não precisa me agradecer, a foto é sua, por direito. Aliás, nem sei como ela veio parar aqui.

Danielle ficou olhando a foto junto com Leslie, mas não disse uma palavra, era desnecessário. Leslie pegou a foto e guardou numa carteira.

- Agora que me toquei! Você disse “Hakushima”? – Yuna.
- Sim, o nome é esse, por quê?
- Hakushima é um nome japonês.
- Ahhhh! É MESMO!
- Isso quer dizer que virá um japonês pra cá. Você sabe se será um garoto ou uma garota?
- Pior que não. Na agência só me informaram o nome da família que me hospedaria.
- Só espero que seja alguém legal.
- Dani, você já disse isso!
- Eu sei, L, mas tem uns japoneses que SÓ pensam em hentai! Não quero ter um vizinho tarado!
- Hahaha, Dani, não diga bobagens! – Hide, enquanto lia a sessão de esportes.
- Ué, pai, mas é verdade!
- Não exagere, Dani-chan. Deve ser algum estudante, nada além disso.
- Melhor que seja...
- Bom, só espero que a família seja legal, senão não vai ser complicado.

Ficaram todos conversando durante a tarde. Na casa dos Nana, Leslie raramente ficava no quarto. Estava sempre envolvida em alguma atividade, isso fazia muito bem a ela. A tarde passou, chegou a noite e a hora de jantar. Embora japoneses, resolveram jantar pizza.

- L! Você come, hein? Por Kami-sama!
- Ah Dani, cala a boca! Você come feito uma porca!
- Mentira! - Mentira nada!
- Hahaha, parem de discutir por isso! Tem pra todo mundo! – Hide, enquanto servia-se um generoso pedaço.
- Tem horas que vocês mais parecem um casal. Vivem implicando uma com a outra. – Yuna.
- A Dani que A-M-A pegar no meu pé! Até parece que ela é anoréxica!
- Há! Nem vem, porque você não é nenhuma magrela! - E você está mais para uma orca!
- Olha! Que sacana! Eu estou em ótima forma, viu?! – Danielle, batendo na barriga.
- Forma de bola. – Leslie, enquanto mordia um pedaço.
- Parem, as duas! Nenhuma de vocês é gorda. – Yuna, novamente.
- Sim, falem menos e comam mais, antes que esfrie!

Pizza, bebidas e risadas regaram a noite. Depois da farra culinária, resolveram assistir a filmes na TV. Leslie não se divertia tanto já havia um bom tempo. Isso fez com que ela limpasse sua mente. Passou-se aquela noite, a seguinte, e a conseguinte também. Quando todos perceberam, era véspera da viagem. Leslie e Dani foram ao shopping, comprar algumas roupas pra viagem. Compraram algumas blusas bem grossas, calças, botas, enfim, preencheram qualquer possível lacuna do guarda-roupa de Leslie. Na volta pra casa, viram o carro de Bella.

- Não é a Bella, ali? – Danielle apontando o carro da frente, enquanto aguardava o farol abrir.
- É. É a placa do carro dela.
- Você não vai se despedir? Viaja amanhã.
- Não, ela não merece nada meu. – Leslie olhou pro lado, enquanto o sinal abria.
- Bom, eu te entendo...

O sinal abriu e elas prosseguiram. O caminho para ambas era o mesmo, então um possível encontro era quase inevitável. Leslie pediu para Danielle diminuir a velocidade, pois queria que Bella entrasse em casa sem que pudesse vê-la. Foi o que ela fez. Do carro de Danielle, puderam ver Bella estacionar e seguir para dentro da garagem, carregando consigo uma bolsa. Leslie preferiu não dar muita bola e tratou de entrar na casa dos Nana, carregando as compras.

Danielle ficou intrigada por uns instantes, mas entrou pouco depois.

- O que será que ela carregava? – Danielle sussurrou.
- ... – Recebeu como resposta um olhar de TOTAL reprovação.

Preferiu, então, mudar o rumo da conversa.

- Acha que comprou tudo o que precisava?
- Eu? VOCÊ comprou praticamente tudo o que viu! Eu talvez nem consiga usar tudo, haha.
- Ah, mas você precisava tirar esses farrapos, né? Uma atualizada é sempre boa!
- Eu curto também, mas a gente podia ter comprado menos coisas. – Leslie, perdida em meio às sacolas.
- Ah, mas agora você não precisará de mais nada, é só fazer as malas e viajar.
- Sim, eu tô ansiosa! Mal posso esperar!
- Me liga de lá, tá? - Pode deixar! Agora, vamos ver as coisas!

As duas subiram para o quarto de Danielle e ficaram vendo as roupas. Leslie experimentou praticamente tudo, e tudo serviu bem. Terminaram de ver as coisas no início da tarde, e Leslie arrumou as malas. Três ao todo. Os Nana resolveram dar um jantar de despedida para ela, com coisas que gostava. A relação entre ambas as famílias era de muita proximidade, eram todos uma mesma família, não apenas amigos. Leslie resolveu ir dormir cedo, pois o vôo era sete da manhã. Até se deitou, mas praticamente não dormiu.

Quando deu por si, já era hora de ir. Sentiu um frio na barriga enquanto trocava de roupa. Desceu as escadas carregando uma mochila, enquanto Hide levava as três malas. Ela pensou em se despedir de Bella, mas achou que a irmã ainda estaria muito chateada pelo episódio anterior, então escreveu um bilhete e pediu que Yuna a entregasse. Danielle estava visivelmente emocionada pela partida da amiga, mas conteve as lágrimas. Só não conseguiu conter-se de dar um abraço sufocante em Leslie, que retribuiu. A ida até o aeroporto, chamado “Tegel”, foi de aproximadamente quinze minutos, sem trânsito.

Leslie poderia ter ido de trem, caso quisesse, mas como haveria várias paradas, optou por ir de avião. A viagem de avião levaria mais ou menos duas horas e meia. Quando chegaram no aeroporto, Leslie despachou as malas, fez o check-in e aguardou instruções sobre qual portão deveria ir. Na hora que o alto-falante chamou os passageiros, ela se despediu dos Nana, entregou a passagem à aeromoça, e adentrou o portão rumo ao avião, deixando tristezas e alegrias para trás.

Sentou-se na fileira k, assento 15, e ficou olhando pela janela, até o avião decolar.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Seltsame Visionen

Berlim, Março de 2009, 3:30 da manhã: Seltsame Visionen.

Era bem tarde, e Danielle/Leslie ainda viam dvds. Danielle chiou por vários serem de filmes antigos, mas, mesmo assim, assistiu todos atentamente. Leslie ria dos comentários engraçados da amiga.

- Credo, você reclama de tudo! Hahaha. Vai ser reclamona assim lá no Japão!
- Ah, para. Seu pai tem filmes da época em que Maomé ainda estava procurando a montanha!
- Besta! Para de ficar zoando o meu pai! Vaca! – Leslie deu um soco no ombro de Danielle.
- Ai!!! Isso dói, porra! - Haha, se fodeu! Isso que dá ficar zoando o meu pai!
- Ah, seu pai curte só velharia! Vai dizer que é mentira?
- E daí? Bem que você viu todos os filmes! Larga de ser chata!
- Haha, ok, ok. Acho que vou dormir, está bem tarde! – Danielle se assustou ao ver que horas era no relógio na parede. - Fica um pouco mais, logo vou dormir também.
- Tá, mas só mais alguns minutos.

Elas, então, continuaram assistindo. O filme acabou por volta das 4 da manhã, então Danielle subiu para o quarto de Leslie, para dormir. Ela ficou mais um tempo na sala, depois foi tomar um copo d’água na cozinha. Quando chegou lá, começou a se sentir estranha, tendo uma leve sensação de tontura. - Credo, tô tonta! Vou sentar antes que caia no chão. – Procurou a cadeira mais próxima e sentou-se. Ficou sentada uns cinco minutos.

- Acho que passou. Ainda bem... Leslie saiu da cozinha, e foi para as escadas. Bastou subir dois degraus que o que lhe afligia sentir novamente, sentiu. - Merda! De novo isso?! – Leslie sentiu seu corpo enfraquecer, teve de se segurar no corrimão. Antes que pudesse raciocinar sobre o que acontecia, caiu sentada no degrau da escada. Começou a sentir uma ânsia, mas não vomitou. Por um instante, sua visão ficou turva. Ela não podia ver, mas seus olhos ficaram mais opacos.

- DANI! ME AJUDA! NÃO TÔ ME SENTINDO BEM! – Gritou, desesperada pela ajuda da amiga. Danielle ouviu os gritos, e desceu correndo as escadas. Se deparou com a amiga sentada, trêmula e chorando.

- QUE FOI?? O QUE ACONTECEU??? – Pegou Leslie no colo e tratou de amparar a amiga.
- AQUILO DE NOVO! EU NÃO CONSIGO VER DIREITO! ME AJUDA!! – Leslie se agarrava em Danielle, como se estivesse tentando se proteger de algo ou alguém.
- FICA CALMA! EU TÔ AQUI! SE ACALMA! – Danielle abraçou Leslie com força, tentando passar segurança à ela.
- AI! TIRA ISSO DA MINHA CABEÇA! TIRA! POR FAVOR! – Ela começou a chorar mais alto, em pânico total.
- FICA CALMA! SENÃO NÃO POSSO TE AJUDAR! VOU CHAMAR UM MÉDICO!
- NÃO!!! NÃO ME DEIXA SOZINHA! – Antes que Danielle pudesse dar um passo, Leslie se agarrou em suas pernas, quase a derrubando na escada. - MAS VOCÊ PRECISA DE UM MÉDICO! VEM, SOBE COMIGO ENTÃO! – Danielle teve de praticamente arrastar Leslie escada acima, pois ela estava tão aterrorizada que mal tinha forças para andar. Com muito esforço, conseguiram ir para o quarto.

Danielle deitou Leslie na cama e pegou o celular. Danielle vinha de uma família de médicos, então ligou para seu pai. Como Danielle era praticamente vizinha dos Himmenfeld, seu pai, Hidetoshi Nana, logo chegou a casa.

- Danielle, o que aconteceu?? Onde você pos a Leslie? – Chegou preocupado, trazendo uma maleta com seus instrumentos médicos.
- PAI! ELA TÁ TENDO AQUILO DE NOVO!! VOCÊ PRECISA AJUDÁ-LA!
- CALMA! Me leva até onde ela está! Danielle e Hidetoshi subiram as escadas, mas ao entrarem no quarto, encontraram Leslie inconsciente. Hidetoshi subiu na cama, e checou sua pulsação. Felizmente estava normal.
- PAI! O que ela tem? – Danielle, desesperada e com lágrimas nos olhos.
- Calma filha, ela está dormindo. O pior já passou.
- Mas pai! Ela estava gritando, desesperada!
- Eu sei, mas os batimentos e a pressão dela estão normais. Acalme-se, vamos levá-la para o hospital, fazer mais exames.
- Ela vai ficar boa, então? – Danielle, enxugando lágrimas com as mãos.
- Primeiro precisamos saber o que ela teve. Se foi um ataque epilético, convulsão. Pelo que você me disse ao telefone, isso é o mais provável. Mas, aparentemente, ela está bem.

Hidetoshi pegou Leslie nos braços e levou até a rua, onde estacionou o carro. Danielle, Leslie e ele, foram para o hospital. Chegando lá, ela acordou, meio zonza, mas bem.

- O que aconteceu? Me sinto tonta.
- Danielle me ligou, disse que você estava tendo uma crise. Te trouxemos pro hospital.
- Leslie! Você tá bem?? Quase me matou de susto! – Danielle olhou Leslie com olhos preocupados, mas viu que ela parecia melhor.
- Ai, acho que sim. Não lembro direito o que houve...
- Bom, você vai ficar aqui, em observação. Quando cheguei na sua casa, você estava dormindo. Sua pressão está boa, mas por precaução, vamos fazer uma bateria de exames.
- Tudo bem... – Leslie estava confusa. Lembrava de algumas coisas do que havia ocorrido, mas elas eram bem espaçadas. Tiraram sangue, fizeram ressonância. Os exames deram normais, então liberaram Leslie para voltar pra casa.

Como os Nana e os Himmenfeld eram amigos, Dr. Hidetoshi sugeriu que fossem para sua casa, assim não ficariam sozinhas. As garotas aceitaram. Ele as levou de carro até lá, por volta das oito da manhã. A casa dos Hidetoshi pouco lembrava o oriente. Era grande e espaçosa, mas decorada de maneira simples.

- Vem, L. Você vai comer alguma coisa, depois te deito no meu quarto. – Danielle levou Leslie para a cozinha, para comer algo. Depois de comer, subiram para o quarto. Leslie se deitou, meio a contragosto.
- Eu tô bem, Dani. Já passou.
- Ah! Nem vem! Você estava desesperada àquela hora! Pode ir deitando! Vou ligar pra Bella, ela tem que saber. - Espera! Não liga! Ela vai ficar no meu pé!
- “Não liga” o caramba! Ela é sua irmã! Ela TEM que saber o que aconteceu!
- Sério! Não liga! Não quero que ela saiba! Não vai entender! - Vai sim! A gente conta tudo o que aconteceu! Não quero passar por isso de novo!
- Você não entende! A Bella vai achar que eu pirei!
- Vai porra nenhuma! Vou ligar! A mãe de Danielle, Yuna, passava pelo corredor e escutou a discussão. Tratou de entrar no quarto e acalmar os ânimos.
- Meninas! Fiquem calmas! Pra que brigarem por isso? Danielle, liga lá de baixo. A Bella tem que ser avisada, SIM. É a mais velha, é a responsável.
- Mas Yuna! – Leslie se levantou, abrindo os braços em forma de protesto.
- Sem mas nem meio mas, Leslie-chan! Como sua madrinha, eu tenho autoridade! Então vai deitando aí e trate de descansar!
- ... – A loira teve de acatar a ordem.
- Agora, me conta o que aconteceu. A Dani já me contou o que aconteceu com você da outra vez.
- Não posso!
- Claro que pode, meu amor. Você está entre amigos.
- Mas...
- Não me venha com “mas”, te vi crescer, menina! É quase como uma segunda filha. – Danielle era filha única.
- Então... ...Você sabe?
- Sei. Sei de tudo. E te digo: é mais fácil se você puder contar para alguém. – Passou a mão nos cabelos desarrumados da garota. – Como diria minha amiga Tomoko: “Nossos problemas são do tamanho que fazemos eles serem”. E no seu caso, isso pode ser encarado como algo bom.
- Não sei... Tô com medo disso.
- Não precisa, eu estou aqui, não estou?
- Sim, mas... – Antes que Leslie pudesse continuar, Danielle voltou.
- Pronto, já falei com ela. Disse que vai vir pra cá o quanto antes.
- Bella, sempre irresponsável... Ai, ai, ai... – Yuna adorava ambas as irmãs, mas sempre via um certo desleixo por parte de Bella. A achava um pouco ausente na vida da irmã mais nova.
- Putz, ela não vai me deixar em paz!
- Vai sim! Se ela pegar no seu pé, vai se ver comigo! Agora, conta o que houve.
- ...
- L, conta! Minha mãe pode te ajudar!
- ... – Começando a chorar.
- Conta pra mim, vai se sentir melhor se desabafar.
- Mãe, acho melhor esperar a Bella chegar. Assim ela fica sabendo de tudo pela Leslie, mesmo.
- Tem razão, Dani. Assim Leslie terá mais tempo para se preparar. Fica com ela, que vou preparar um chá.

Yuna foi preparar o chá, e as garotas ficaram conversando.

- Você não devia ter ligado. Já até sei o que a Bella vai dizer.
- Não começa! Ela é sua irmã, precisa saber!
- Porra, Dani! Você sabe que ela não vai entender!
- Se não entender, problema dela! Para de agir feito criança!
- Dani, você acha que é fácil pra mim? Não é você que fica tendo essas coisas!
- Agora você está sendo injusta! Eu tô querendo te ajudar e você faz isso? Porra, eu te amo, mas eu não ADMITO que você aja assim comigo, ainda mais depois de tudo o que eu passei pra te ajudar! – Danielle ficou muito irritada, e deu um tapa no rosto de Leslie. Ela não reagiu, pois percebeu que foi infeliz no que disse. Mal sentiu a dor do tapa, porque ficou surpresa ao ouvir o que a amiga disse.
- Você me ama?
- Amo! E amo muito! Mas não vou ficar aqui sendo destratada por você!
- Espera! Desculpa! Eu não quis dizer aquilo!
- Mas disse! Aff, tem horas que você parece mais criança que a Yumi! Deita aí e dorme, vou tomar um banho, porque estou um lixo! – Danielle saiu do quarto e foi para o banheiro, batendo a porta com força. As palavras dela ficaram ecoando na cabeça de Leslie.

Alguns minutos após Danielle ir para o banho, Yuna voltou. Escutou a porta bater, mas não tocou no assunto.

- Tome, este chá vai te relaxar. Coma os biscoitos também. – Entregou um pratinho com biscoitos e a xícara de chá a Leslie. Ela bebeu sem reclamar. Comeu os biscoitos também.
- Obrigada, estava bem gostoso.
- De nada, querida. Bom, se sente preparada agora?
- Ai, Yuna, é muito complicado...
- Então vamos descomplicar. Desde quando você tem isso?
- Começou tem duas semanas. Eu estava em casa, e, DO NADA, tive um clarão. Quando dei por mim, estava deitada no chão da cozinha.
- Mas você se lembra o que aconteceu durante o “clarão”?
- Lembro... – Colocando a mão na testa.
- Então, conte-me tudo. – Yuna dava goles demorados no chá, enquanto esperava Leslie se pronunciar. Estava muito tranqüila.
- Eu... Eu vi... E U ME VI MATANDO A BELLA! – Grito de desabafo.
- Você deve ter tido um pesadelo, querida. – Yuna afagou os cabelos de Leslie.
- NÃO! EU VI! ESTAVA CONSCIENTE! EU VI TUDO! EM DETALHES!
- Calma! Vamos devagar! Me conta exatamente o que aconteceu na sua visão.
- Yuna, foi terrível! Eu me vi, esfaqueando ela, sem motivo algum!
- Mas como? O que acontecia? – Yuna ainda estava tranqüila, até demais.
- Ela estava na cozinha de casa, quando eu chego, pego uma faca, e simplesmente esfaqueio ela, pelas costas!
- Você pode ter tido uma alucinação, muitas pessoas tem.
- Não, Yuna! Não foi! Eu sei o que vi! Eu não estava sonhando nem nada disso!
- Querida, essas coisas devem ter alguma explicação. Você simplesmente não tem visões, ainda mais deste tipo. Melhor procurarmos um psicólogo, psiquiatra. Alguém deve saber o que isso significa. Está com raiva da Bella?
- Não, esse é “o problema”. Nós temos brigado bastante, e eu fico com medo de acabar fazendo o que vi, entende? Por isso não queria falar pra ela.
- Leslie, eu te entendo, perfeitamente. Mas, mesmo assim, ela tem direito de saber o que acontece. Antes que me esqueça, o que aconteceu desta vez? Você falou da primeira visão, certo?
- Sim. Foi. Desta vez eu me vi arrastando o corpo dela pela casa. O sangue sujando todo o chão. – Lágrimas. – E eu ria! Estava feliz por ela morrer!
- Vem cá, deixa eu te abraçar. – Leslie sentou-se no colo de Yuna, que a acolheu, como uma mãe acolheria uma filha. – Já passou. Nós vamos resolver esta situação, você vai ver.
- Eu q-quero que isso pare! - Vai parar, meu amor, vai parar.

Ficaram assim por uns bons minutos, enquanto Danielle não voltava do banho. Assim que ela voltou, atendeu uma ligação de Bella, no celular. Ela dizia que já estava chegando. A situação não foi simples de ser explicada. Bella ficou atônita ao ouvir da própria irmã que havia se visto matando-a. Ficou impressionada pelo detalhamento da cena.

- Você deve me odiar muito, pra pensar algo assim! – Era visível que Bella havia ficado muito magoada com a situação. Como Leslie havia previsto, ela não tinha entendido.
- Bella, ela não pensou em matar você, ela teve uma visão disso, é diferente! Muitas pessoas tem. – Yuna.
- Mas Yuna, como ela pode ter uma “visão” de uma coisa dessas? Matar a própria irmã e ainda rir?? Ah! É demais pra mim!
- Não seja ignorante, menina! Você é instruída o suficiente para saber que ter visões é algo até comum! Além do que, você sabe muito bem que ela não te odeia!
- E como eu posso ter certeza agora?? Me diz?? Se ela “viu” isso, por que não faria? Já que ela sabe que teria êxito??

Yuna se levantou, deixou Leslie sentada na cadeira, e deu um tapa no rosto de Bella. O barulho da mão batendo contra o rosto ecoou pelo corredor.

- NÃO ME FAÇA TER QUE TE DAR UM CORRETIVO, BELLA HIMMENFELD!
- VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME BATER! NÃO É MINHA MÃE! – Bella, segurando o rosto.
- TEM RAZÃO! SE EU FOSSE, VOCÊ NÃO SERIA TÃO FUTIL E INFANTIL! AGORA SENTA QUE EU AINDA NÃO TERMINEI! - Yuna apontou para a cadeira onde Bella estava sentada, e ela sentou-se novamente.

Yuna era capaz mesmo de “corrigir” a garota.

- Ótimo! Agora podemos conversar civilizadamente! Danielle apenas observava a discussão, prudentemente. Yuna era uma pessoa muito amável e gentil, mas não tolerava insolência. Se fosse realmente preciso, bateria em Bella. O tempo foi passando, enquanto Yuna tentava convencer Bella da situação da irmã. Embora fosse inteligente, Bella era muito cabeça dura. Dificilmente mudava de opinião sobre algo. Yuna, felizmente, se sabia fazer convencer.

- Entendeu agora, Bella? – Yuna estava começando a ficar impaciente perante a teimosia da ruiva.
- Yuna, você não vê? Ela me odeia! Eu tento ser uma irmã legal, gostar das coisas que ela gosta, e olha como ela me paga!
- Ai, Bella, você é mais teimosa do que uma mula. Leslie não odeia você! Pare de teimosia!
- Como não?? Que irmã se vê matando a outra e ainda rindo? Se isso não for ódio, então, me desculpa, mas eu não sei o que é!
- Escuta aqui, garota. Eu não vou ficar tolerando você me ironizar! Você é mesmo uma irresponsável egoísta! Não está vendo que estou te dizendo que o que ela teve foi uma visão? Será que você fundiu o cérebro??
- FILHA DA PUTA! VADIA! EU NÃO TE ODEIO! EU TIVE UMA PORRA DE UMA VISÃO! SERÁ QUE VOCÊ É TÃO BURRA QUE NÃO CONSEGUE ENTENDER O QUE É ISSO? CHEGA! VAI EMBORA! – Leslie, já exausta de ouvir tantos gritos e de se sentir um monstro, na visão da irmã. Ela apontou pra porta, mandando a irmã sair.
- EU VOU SIM! FICA AÍ! ME ODEIA MESMO! NUNCA MAIS CHEGA PERTO DE MIM! – Bella pegou sua bolsa e foi embora, num mix de lágrimas de tristeza e de raiva.

Leslie se descontrolou por alguns segundos, chegou a dar um soco na parede, mas foi contida por Yuna e Danielle. O que restou da fracassada tentativa de explicar o ocorrido a Bella, foram lágrimas de tristeza, raiva e frustração. Demorou para os ânimos na casa voltarem ao normal, mas ficou decidido que Leslie passaria a morar lá até que seu pai retornasse da viagem. O restante do dia foi melancólico, como não poderia deixar de ser.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Berlim, Março de 2009, meio-dia: Amada solidão.

O relógio já marcava meio-dia, e Leslie ainda dormia. Virou a madrugada on-line, e nem desligou o notebook. Quando acordou, a casa ainda estava vazia.

- Pelo visto aquelas duas não vão voltar tão cedo... – Ficou feliz, já que sentia uma necessidade incomum de ficar só.

Desceu, tomou café da manhã, fez os afazeres domésticos e voltou-se para um projeto pessoal: um mangá chamado “Herz”, que tratava sobre uma menina que em situações de estresse invocava espíritos que davam poderes especiais a ela. Não havia mostrado para ninguém da família, pois achava que não entenderiam. A personagem do mangá se chamava Ryoko Tzukawa, tinha 13 anos e era uma estudante comum, até que um dia ela despertou uma mediunidade, quando era vítima de maus-tratos pelo pai. Ela perdeu a consciência, e quando voltou a si, o pai estava caído no chão, morto.

- Putz, preciso acertar o rosto da Ryoko, ainda está muito fino! Acho que preciso pesquisar mais sobre o Japão, sobre os traços típicos dos japoneses. Vamos ao note... – Voltou-se ao notebook, começando a pesquisar sobre a cultura e filosofia japonesas. Procurou saber também sobre os traços comuns dos japoneses e sobre nomes de famílias. – Hummm, vou começar por aí. Ela ainda está muito ocidental, preciso mudar isso. Onde é que pus meus lápis? Sempre esqueço!

Enquanto desenhava, Leslie conseguia esquecer de fatos recentes, além da falta que sentia da mãe. Mas o que mais a afligia, foi o que aconteceu cerca de duas semanas atrás. As horas passaram enquanto desenhava, e finalmente estava ficando satisfeita com os traços da personagem do mangá.

- Agora sim! Agora ela parece japonesa! Só preciso fazer direitinho a cena onde ela mata o pai. Haha, curti! – Ryoko acabou sendo uma garotinha baixa, roupa de colegial, olhos cinza, longos cabelos negros, aparência triste.
Terminou de desenhar a cena, e nisso já eram 3 da tarde.

- Puta, que fome! Vou comer algo antes que eu caia dura aqui! – Desceu correndo as escadas, pegou um pacote de salgadinho na cozinha e passou a devorar tudo, como alguém que não viu comida por dias.Acabado o banquete, Leslie resolveu tomar banho e sair. O dia não estava muito frio, e ela gostava de andar pelo centro da cidade. Sempre parava nas lojas de música para conferir as novidades.

- Vou dar uma passada pela Titamusik, estou mesmo precisando de cds novos! Só espero que eles tenham o novo do Purple Fog Side! – Eufórica.

Bella e Klaudi haviam levado o carro quando saíram, então Leslie só teve a opção de ir de ônibus. Uma chuva fina caia, molhando os cabelos curtos dela. Leslie colocou sua jaqueta militar preta, o qual ela amava, calçou o coturno e esperou no ponto. Os minutos de espera foram poucos, mas suficientes para ela sentir o frio. Quando o ônibus veio, ela sentou-se à janela, para aproveitar a vista chuvosa.

Da casa de Bella e Leslie ao centro a viagem não passava de dez minutos. Quando o ônibus chegou ao seu destino, Leslie colocou o capuz da blusa, aumentou o volume do Ipod e caminhou por entre as pessoas apressadas. Umas se escondendo da chuva, outras indo para compromissos importantes. Em meio a tudo isso, vários olhares notavam a bela garota de capuz e olhar profundo. Alguns sorrisos se abriram, outros mantiveram-se fechados pelo ar frio. Leslie entrou numa rua extensa, que terminava na esquina da loja.

A Titamusik era uma loja antiga em Berlim, cujo Johan levava as meninas para ouvirem música desde cedo. Johan, apesar da vida corrida, era guitarrista, gostava de blues. Sempre que iam a loja, as meninas se lembravam de seu pai tocando enquanto elas viam e ouviam, maravilhadas pelos belos acordes.
Quando Leslie chegou a Titamusik, se deparou com Danielle, que trabalha lá, como atendente.

- Leslie! E aí? Tudo bem? Faz um tempinho que a gente não se vê! – Danielle veio sorridente até Leslie, eram amigas desde que conseguiam se lembrar, e isso já tinha mais de uma década.
- Oi Dani! Tudo bem, sim, e você? – Leslie deu um leve beijo na bochecha de Danielle, que retribuiu o carinho.
- Ah, eu estou bem, trabalhando e estudando muito! E você? Como vai na Humboldt? Aqueles dinos estão pegando muito no seu pé? Hahaha. – Danielle era uma garota bastante alegre, gostava muito de conversar e ler, especialmente mangás, paixão que dividia com a própria Leslie.
- Nossa, e como, viu... Principalmente o professor de genética. Ele praticamente quer que clonemos uns ao outros! Tem horas que sinto vontade de mandá-lo pr’aquele lugar! – Sempre que se viam, as conversas eram longas, divertidas. Falavam de todo o tipo de assunto abertamente, eram quase como irmãs.
- Putz, sei como é. Comigo, não é diferente! Os velhos quase comem o meu rim! Eu achei que ia curtir programação, mas só falta me açoitarem na aula!
- Hahahahaha, é foda, cara! Eu AMO psicologia, mas as aulas são muito difíceis. E você sabe, né? Logo vou pra Inglaterra, fazer intercâmbio. Meu inglês é pífio!
- Ah, mas eu te disse... Eu poderia muito bem treinar com você, só você pedir.
- É, eu sei, mas meu pai quer porque quer que eu fale como uma “inglesa típica”. Vai entender...
- Falando nele, ainda está viajando?
- Sim, fica em Paris mais duas semanas.
- E a Bella? Ela veio aqui uns dois dias atrás. Falou que você andava estranha, mas não contei nada pra ela.
- Ah, a gente anda naquelas... Brigamos um dia, quase nos matamos três. Ainda bem que você não contou, não a quero mais ainda no meu pé!
- Mas você ainda tem?
- Faz uns dias que não... – Leslie olhou para Danielle com uma cara de preocupação.
- Você deveria procurar um médico. – Danielle pos as mãos nos ombros da amiga, confortando-a. – Mas vem! Chegaram uns cds bacanas!
- Ok!

A loja era grande, várias estantes, repletas de cds. Clássicos, rock, pop, música folclórica e a que Leslie brilhava os olhos: música eletrônica. Além de cds, a loja também dispunha de instrumentos, acessórios como camisetas, bonés, cintos e spikes, broches e adesivos. Tinha também uma área para escutar cds. Leslie passava boa parte dos dias lá, ouvindo música e estudando. Os donos da loja a conheciam e ela era bem-vinda.

- Nós temos aquele que você queria. Chegou ontem! – Danielle apontou para a estante onde o cd estava.
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! NÃO ACREDITO!! EU ESTOU ESPERANDO POR ESSE CD TEM UM TEMPÃO! – Leslie praticamente se atirou sobre a estante, pegando o cd nas mãos. Parecia uma garotinha com um brinquedo novo.

O cd se chamava “Music For Indigo Kids”, do Purple Fog Side, uma banda russa de darkwave, mas que também cantava em inglês.

- NOSSA! SÓ DOZE EUROS?? VOU LEVAR! – As garotas correram para o caixa, onde Leslie deu os doze euros. Danielle embalou o cd para presente, e pos numa sacola da loja.
- Haha, calma! Agora é seu!
- Cara, até que enfim! Esperei muito por ele!
- Ei, hoje eu saio às três, aí a gente podia dar umas voltas, que acha?
- Eu topo, estava fazendo nada em casa mesmo, estou sozinha esse fim-de-semana. Se quiser, dorme lá.
- Beleza então! Vou sim!

Leslie então foi para a área com os fones de ouvido, para estrear o cd que havia acabo de comprar, enquanto Danielle atendia clientes. Normalmente eram três atendentes, mas naquele dia ela estava sozinha.Leslie então se perdeu no mundo das batidas do darkwave. Quando se deu conta, já era hora de fechar a loja.

Danielle e ela, então, foram comer num shopping próximo. Conversaram, riram, depois foram ao cinema. Assistiram “Quem quer ser um milionário”, sucesso daquela semana.Findado o filme, resolveram ir para a casa de Leslie. Ficaram conversando no ponto, esperando o ônibus. As pessoas passavam, umas indo, outras vindo, mais algumas ficando, mas elas entretinham-se muito mais nas conversas e risos, o que chamava a atenção alheia, não apenas pela beleza de ambas.

Danielle era uma garota de pele clara, 1 e 75, corpo bonito. Apesar de japonesa, era loira natural. Calça preta, de jeans, rasgada nos joelhos. All Star vermelho nos pés, camiseta branca, escrito “Björk”, na cor preta, jaqueta jeans preta. No trajeto do ônibus para casa, Danielle mostrou fotos de sua irmãzinha, Yumi, que estavam na câmera. Ela e Leslie ficaram vendo fotos e tirando fotos, sob o olhar curioso dos passageiros.

Quando chegaram a casa, ficaram um tempo conversando no sofá.

- Hahaha, olha! Aquele velho bigodudo saiu numa das fotos! – Danielle ria copiosamente enquanto via as fotos.
- Deixa eu ver! – Após ver: aquele velho te comia com os olhos! Deve ser um daqueles bem tarados!
- Vá se foder! Ele queria era você, loirinha dos lábios carnudos, boa de boca! Hahahahaha! – Uma tirava sarro da outra, mas nunca brigavam, sabiam que não passava de brincadeira.
- Eu porra nenhuma! Ele deve curtir aqueles sites tipo “big tits oriental girl”, bem a sua cara, sua vaca! – Leslie havia esquecido completamente suas preocupações. A presença de Danielle sempre a enchia de alegria.
- Ah, vá, ele estava olhando pra você, não pra mim! – Apontando com o dedo.
- Eu nada! Sai fora!
- Hahaha. L, falando sério agora. Você devia procurar um médico.
- Dani, não quero falar disso, ok? Vamos falar de outras coisas, por favor. – Os olhos verdes de Leslie pareceram mais opacos, quando ela terminou a frase.
- Ok, tudo bem. Bom, onde vou dormir?
- Ah, dorme no meu quarto, ué. Já dormiu nele antes.
- Hahaha, você me agarra durante a noite, sua emo do caralho!
- Vá se ferrar, porra! Eu nem vejo o que estou fazendo!

As duas resolveram subir para o quarto de Leslie, onde Danielle deixou sua bolsa. Como ela ia dormir lá, pediu para Leslie separar algumas roupas para que ela pudesse vestir. Depois disso, ficaram vendo vídeos engraçados pela internet. A cama onde Leslie dormia era grande, então as duas caberiam, sem maiores complicações.

- Ei, os traços da Ryoko ficaram legais! Ela parece comigo ou é impressão minha? – Danielle, apontando uma folha onde Ryoko aparecia sentada num balanço.
- Acho que sim. Vai ver acabei usando alguns traços seus nela, sem perceber. Gostou mesmo?
- Claro! Ficaram ótimos mesmo. Mas sei lá, pra que tanta violência?
- Nunca sentiu vontade de “exorcizar seus demônios internos?”
- Ah, sim, já. Claro que já. L, você sabe que pode falar comigo sobre o que quiser. – Vendo as outras páginas terminadas. Ao todo, eram dez.
- Sei sim, mas quis extravasar desenhando. Me sinto bem assim.
- Eu curto, também. Pretende publicar? Ouvi dizer que vai haver um evento de animes e que algumas editoras estarão procurando novos talentos. Só não sei ainda quando será.
- Sério? – Leslie se senta na cama, folheando uma revista. – Sabe onde será?
- Não ainda, mas assim que souber, te aviso!
- Beleza. Mas voltando, não sei se teria coragem, e ainda não terminei, também. Tenho que fazer muita coisa ainda.
- Ah, mas o evento não será tão já, então deve te dar tempo suficiente.
- É, talvez...

Depois de ver todas as páginas, Danielle pediu por algumas roupas, pois queria tomar banho. Pediu também por toalhas.Banho tomado, Danielle voltava para o quarto vestindo um agasalho preto, Adidas.

- Nossa! O chuveiro daqui é tão bom! A água fica quentinha! – Ainda enxugando os cabelos.
- Haha, é sim, senão eu morreria nesse frio!
- Ah, nem está tão frio assim. O inverno, por enquanto, está leve. Você deveria ver como é o inverno no Japão, sempre muito forte!
- Nunca fui lá, mas meu pai já foi algumas vezes. Ele trouxe uma máscara Kabuki uma vez, muito “rox”.
- Teatro Kabuki é cool mesmo. Fui algumas vezes quando era pequena.
- O que faremos agora?
- Sei lá, tem algum dvd legal aí? A gente podia assistir. Já vi tela de pc por tempo demais hoje!
- Só vendo na sala mesmo, eles não ficam aqui. Vamos lá embaixo então.

Já na sala.

- Esses todos são do seu pai??
- São sim.
- Caramba! Ele curte umas velharias, hein?
- Hahaha, sim. Meu pai curte mais os filmes clássicos, tipo Casablanca. Coisas da “época dele”.
- É, dá pra notar. Tem coisas aqui da época em que os dinossauros ainda existiam. – Mexendo nas duas prateleiras, repletas de dvds.
- Mas tem vários bons, não seja chata.
- Tá, tá, me mostra algum então.
- Que tal esse? – Leslie, pegando “Vertigo”, de Alfred Hitchcock.
- Nunca vi, é legal?
- Sim, bastante! É de um voyeur que tenta descobrir um assassino, você vai gostar.
- Tem pipoca, né? Porque, sem pipoca, sou incapaz de assistir qualquer coisa!
- Só estourar, oras... – Cara de, “só você ir à cozinha e fazer”.
- Nossa, a casa é SUA, e EU que tenho que fazer??
- É VOCÊ quem quer comer, então VOCÊ faz.
- Humpf, eu faço, vai... As duas foram para a cozinha, e em pouco tempo voltaram, trazendo consigo dois sacos de pipoca. Ficaram assistindo dvds até tarde.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Berlim, Março de 2009, 1 da tarde: De volta ao lar.

A volta da universidade foi tranqüila. Poucos carros na rua, trânsito leve. Embora fosse inverno, fazia agradáveis 15 graus. O céu estava limpo. De volta pra casa, Bella abriu a porta da garagem pelo controle-remoto e estacionou. Mal parou o carro, Leslie saltou e foi pegando sua chave da casa. Ela não viu, mas Bella fez um olhar de reprovação.

- O que deu nela? - Klaudi perguntou, mas não estava surpresa pela atitude.
- Sinceramente? Prefiro nem saber!


Quando Bella e Klaudi entraram, Leslie já havia subido as escadas. Da sala da casa, puderam ouvir a porta batendo.

- Ai Klaudi, não sei mais o que fazer. Tem umas três semanas que ela vem agindo assim. Não sei o que acontece com ela.
- Deixa. Vai ver ela está chateada por vocês discutirem. Vem, estou morrendo de fome! – Klaudi puxou Bella pela mão e a beijou, depois a puxou para a cozinha. Estavam famintas.

- O que você vai fazer? Estou faminta! – Klaudi tinha o hábito de comer muito, mas tinha um corpo esbelto, mesmo assim.

- Calma! Haha, você só pensa em comer? – Bella já pegava uma frigideira e se dirigia a geladeira, na certa ia preparar alguma carne.

- Claro que não! Penso em você, também! Já parou pra pensar que estamos namorando tem três anos?

- Ah, que linda! É mesmo, né? Três anos maravilhosos!

Klaudi e Bella se conheceram ainda na escola. Já naquela época, Klaudi era lésbica assumida, e teve dificuldades em convencer Bella a aceitar um relacionamento com ela, mesmo percebendo a atração da ruiva por ela. Klaudi sempre foi excelente observadora.

- Acho que passou da hora de morarmos juntas, você não acha? A gente praticamente vive uma na casa da outra. – Klaudi ia pondo a mesa, enquanto Bella fritava alguns bifes. A cozinha era simples, apenas alguns armários, uma mesa grande, de vidro escuro, uma geladeira grande e utensílios domésticos estrategicamente posicionados. Bella cozinhava bem e adorava. Sentia-se feliz quando gostavam de seus pratos.
- Ai, não sei. Você sabe como é, não posso deixar a Leslie sozinha...
- Saber, eu sei, mas gostaria que você ao menos pensasse na idéia.
- Prometo que te respondo logo, mas não posso agora.
- Tudo bem, posso esperar. Sei que você não quer que ela fique sozinha.
- É... Bom, vamos comer? Já está pronto.

Bella pegou a frigideira, serviu ambas com uma boa porção de carne, saladas, arroz. O cheiro da comida impregnava a casa toda, inclusive o quarto de Leslie.

- Vou ver se aquela “azedinha” quer almoçar. Vai comendo. – Bella saiu da cozinha, e deu de cara com Leslie, quase caiu de susto. – Você me assustou! Não faz barulho algum andando! Credo!
- Desculpa... – Leslie não falou nada além disso, só entrou na cozinha, acenou para Klaudi, se serviu e voltou para o quarto. Bella já estava ficando preocupada, pois havia notado que ao acordar, Leslie parecia bem.

- Be, vem, coma antes que esfrie! – Klaudi falava ao ver Bella parada, encostada no batente da porta, pensativa.

- Estou indo. Ah, você vai lavar a louça, não vai? Haha.

- Ok, ok, eu lavo hoje. Mas você seca!

As duas terminaram de almoçar, depois subiram para o quarto de Bella. Quando Leslie desceu para levar seu prato, a casa estava silenciosa.

- Aff, já subiram pro quarto. Sempre a mesma coisa...

Leslie aproveitou e ficou na sala, assistindo uns DVDS. Ela ficava incomodada quando Bella e Klaudi subiam pro quarto, pois sabia o que iam fazer. Ela gostava de Klaudi e aprovava a relação das duas, mas certas coisas ela ainda não havia “digerido”.

Ela nunca teve um “namorado oficial” e não costumava falar sobre o assunto, embora fosse muito bonita. Bella acreditava que ela no máximo “ficava”, e achava que ainda era virgem.

A tarde passou, e após a sessão de DVDS, Leslie voltou para o quarto. Ligou seu notebook, e passou a ver e-mails, MSN, entre outras coisas que fazia enquanto on-line. Aproveitou também para conferir alguns downloads de cds, tinha um gosto variado, mas primava mais pela música eletrônica.

Enquanto isso, Bella e Klaudi estavam deitadas na cama, conversando.

- Tão bom quando a gente fica assim... – Klaudi, enquanto olhava o corpo de Bella, pele bem clara, quase rosada.
- Quer mais? Estava tão bom! – Bella, ao observar as formas de Klaudi, que vestia apenas a calcinha. Branca, de renda.
- Quero. – Klaudi deitou-se por cima de Bella, e começaram a se beijar, apaixonadamente. A conclusão disso era bastante óbvia, para ambas.

A casa ficara quieta, até a noite. O pai de Bella e Leslie, Johan Himmenfeld, era um executivo, e passava boa parte dos dias viajando a negócios. A mãe, Yuki, era uma moça de Tóquio, que conheceu Johan ainda na época da faculdade, mas morreu de forma estranha, sendo encontrada caída, ao lado de uma foto das duas, quando ainda pequenas.

A família não costumava comentar o fato, pois era muito doloroso para todos. Tanto Leslie quanto Bella tinham olhos levemente puxados, herança dos traços orientais da mãe.

- Be, posso dormir aqui, hoje? – Klaudi sempre dormia na casa, mas ainda fazia alguma cerimônia.
- Claro que pode! Não sei por que você ainda pede! – Bella, enquanto arrumava a cama. – Você sempre dorme aqui, nem precisa pedir, pô.
- Ah, sei lá, né...
- Não seja boba, claro que pode! Afinal, é bem capaz que eu não tenha mais nenhuma companhia, mesmo.
- Ainda preocupada?
- Um pouco, mas deixa, depois eu vejo isso com ela.

Bella e Klaudi terminaram de arrumar a cama, e Bella aproveitou para conferir se seu site estava on-line. Bella possuía um site sobre moda, o 8fu.de. Mais precisamente, era sobre moda gótica, punk, alternativo em geral.

- Vamos sair hoje?
- Claro! Não estou querendo ficar nem um pouco em casa. A gente podia ir ao Araknos, é bem legal lá.
- Ah! Você me falou desse lugar, Be. Eu topo!
- Ótimo!! Tem um pessoal que quero te apresentar.
- Mas, e a Leslie?
- Já chamei ela pra ir comigo lá, mas não quis, então não vou insistir. Ela ainda muito estranha ultimamente, e não estou querendo brigar mais ainda.
- Tudo bem, então. Mas que horas a gente vai?
- Ah, lá pelas 23, que é quando a casa “esquenta”.
- Ok, mas vou precisar de alguma roupa sua pra ir, então.
- Aham, eu cuido do seu visual, linda. – Risos.

Araknos era uma boate muito freqüentada por góticos, punks e outras tribos similares. Bella e alguns amigos costumavam ir lá aos fins-de-semana. Era mais ou menos 8 da noite. Enquanto Bella e Klaudi passavam o tempo planejando os preparativos para logo mais, Leslie estava lendo sobre casos de bullying na internet.

- Columbine... Pior que tem horas que eu penso como eles devem ter pensado. Deram um fim naquele bando de filhos da puta que só fodiam com eles. Sei lá, não passo pelas mesmas coisas, mas tem sempre alguém que me acha palhaça de circo. Mas será que isso resolveu o problema deles? – Ficou pensativa, enquanto lia informações sobre casos semelhantes.

Leslie, mesmo bonita, não fazia o tipo “popular”. O piercing no lábio, as duas tatuagens, uma na altura do ombro, outra na costela, a colocavam no grupo das “diferentes”. Algumas vezes arrumou problemas com outras garotas por chamar mais a atenção masculina com seu visual mais alternativo. Não que ela ligasse pra isso. Não tinha muitos amigos, diferentemente de Bella, mas era bastante valorizada por eles. Leslie sempre gostou de pequenos grupos, pois sentia-se mais à vontade. A entrada na universidade fez com que ela ficasse mais reclusa, pois os estudos consumiam bastante do seu tempo, mas sempre se comunicava com seus amigos, via MSN, Orkut. Leslie era o que pode se chamar de “geek”, mas visualmente mais “fashion”. De personalidade forte, era muito franca no que dizia, mas sem deixar a sensibilidade de lado. Não dispensava seu Ipod, costumava desenhar mangas. Como toda mulher, era vaidosa, mas sem excesso, apenas gostava de manter os cabelos na altura dos ombros ou pouco mais curtos, sempre com alguma mecha tingida ou o cabelo integralmente pintado, chegando a pintar de rosa, ainda com 13 anos de idade, para desespero de seu pai. Olhos sempre bem delineados, roupas justas e estilosas, fazia sucesso frente ao olhar masculino. Sua melhor amiga se chamava Danielle Nana, uma garota japonesa que morava em Berlim com sua família desde pequena. Também era um pouco introvertida, e tinha um olhar profundo, do tipo analítico.

- Será que já pararam de se pegar? – Pensou, enquanto saia do quarto para descer pra sala. – Acho que sim. Ouvir o som no talo, aí vou eu! – Adorava ouvir música alta.

Aproveitou a solidão da sala, ligou o som no máximo, e começou a “dançar”, jogando os cabelos loiros para frente, com movimentos contínuos da cabeça e dos braços, aquilo que chamam de “banguear”. Ouvia “Dope Stars Inc. – Lost”, uma de suas músicas favoritas.

- Que som é esse, Be? – Klaudi, enquanto olhava umas roupas de Bella no closet.
- A Leslie ouvindo música. Ela sempre bota o som alto quando está sozinha em casa. Bom, isso é um bom sinal. E aí? Gostou de algo? Já são quase 10:20.
- Já sim. – Klaudi mostra um vestido preto, com rendas na barra.
- Ótimo, vai se arrumando que vou avisar Leslie que vamos sair.

Bella desceu pra sala, e encontrou Leslie, toda descabelada, pulando e cantando.

- EI! KLAUDI E EU VAMOS SAIR! QUER VIR? – Bella teve de gritar, pela altura do som.
- NÃO, VALEU! – Leslie respondeu, mas não parou sua dança frenética.
- OK, NÃO FICA COM O SOM LIGADO ATÉ TARDE! – Leslie sequer respondeu, totalmente imbuída pelo transe da musica.

Bella então voltou para o quarto, onde Klaudi terminava de se maquiar, depois ambas desceram para a garagem e saíram.

- Nossa, a casa só pra mim! Tudo o que eu queria! – E foi assim que Leslie passou o restante da noite. Ouvindo música, na internet, desenhando, fazendo tudo o que lhe agradava fazer.

Herz - Primeiro capítulo

O sol. Ponto de início e também de final de um dia. Dia esse completo por caos, trânsito, estresses urbanos. As pessoas se levantam para trabalhar, se deitam para dormir, na frenética rotina do nascer e pôr-do-sol, escravizadas pelo tic-tac incessante do relógio. Já diziam: “O tempo não para”.

Para muitos, o tempo é uma madrasta severa, pois ele nunca te dá tempo para nada. Temos tempo de não ter tempo, e o tempo nunca esquece de cobrar seu preço.

Berlim, Março de 2009, 7 da manhã.

- Ei, acorda, dorminhoca! Vai se atrasar!
- Mmmm... Só mais cinco minutos...
- Levanta logo! Não vou te dar carona se ficar aí dormindo! – Esbraveja uma garota ruiva, de longos cabelos lisos, olhos verde-claros e lábios volumosos.
- Droga... Já vou! – Ainda deitada, murmura uma garota loira, cabelos curtos, bagunçados.
- Vamos, te espero na cozinha.
- Mmm... – A loira joga o cobertor por sobre o corpo, mas sabe que precisa levantar ou perderá a carona para a universidade.

Respectivamente, elas são:

Bella Himmenfeld, 20 anos, ruiva, olhos verde-claros, trajando um estilo “gótico leve”, usando vestido preto, longo, rendas, mas pouca maquiagem. E claro, munida de uma bela bota cano-alto, salto. Bela, como o próprio nome já sugere. 1 e 70 de altura, 57 quilos.

Leslie Himmenfeld, 19 anos, loira, olhos igualmente verde-claros, cabelos curtos e repicados, algumas mechas negras, calça jeans desbotada e rasgada, justa, regata igualmente justa sobreposta por outra, branca e preta, olhos mais carregados de delineador, coturno. 1 e 72 de altura, 60 quilos.

Ambas com piercings, principalmente lábios e umbigo, mas fisicamente não muito parecidas.

- Até que enfim desceu! Eu já ia sair. – Bella balança as chaves do carro em sinal de pressa.
- Ah, nem demorei tanto assim vai... Não foi você que ficou a noite toda estudando!
- Se fosse mais organizada, não precisaria ter ficado estudando a noite toda, “lorinha”. – Bella lança um olhar de “eu não te disse?” para Leslie, que retruca franzindo os lábios.
- Pega alguma coisa pra comer e vamos, já estamos atrasadas!
- Ok, “mamãe”. – A “lorinha” rapidamente pega um bolinho, uma mochila, e sai.

Ambas se dirigem até a garagem da casa, casa que ambas dividiam com o pai. A casa era ampla, 3 quartos, dois andares, estilo colonial alemão, bem cuidada e decorada, na certa pelos caprichos femininos.

- Droga, o trânsito está péssimo! Eu te disse pra se apressar! – Bella estava mais mal-humorada do que costumava. Normalmente ela tinha bom-humor, mesmo pela manhã.
- Ah Bella, caramba, né? Eu me atrasei poucos minutos. Não é culpa minha o trânsito estar carregado desde cedo.
- Se você não ficasse a noite toda na internet, teria acordado mais cedo e a gente já teria chegado.
- Ah, para, já estamos quase na faculdade! Que implicância, droga! – Leslie pega os fones do Ipod e liga o aparelho no máximo, detestava discutir com Bella.

Quando as duas finalmente chegam a Humboldt, as pessoas ainda estavam entrando pelos enormes portões que cercavam a construção de 1810.

Bella estava no segundo ano de Direito e Leslie no primeiro de Psicologia. Ainda na entrada, Bella seguiu ao encontro de Klaudi, sua namorada, enquanto Leslie seguiu para sua sala, sozinha, como era de costume.

A primeira aula de Leslie era Genética e Evolução Humana, algo que a fascinava. Sempre gostara de imaginar como a estrutura humana foi criada e as modificações que sofrera ao longo do tempo.

Enquanto isso, Bella e “Klaudi”, apelido de Klaudia, seguiam para a aula de Teoria Geral do Estado e Constituição, que ambas achavam chata, mas fundamental.

- Ai, Klaudi, a Leslie está me dando nos nervos! Hoje a gente se atrasou porque ela ficou até tarde na internet. Tem horas que eu queria dar um soco nela. – Bella, apesar de se dar bem com a irmã, odiava a vida reclusa que ela havia escolhido. Tentava fazer ela se enturmar, porém, em vão.
- Calma, amor. Você sabe que ela se diverte assim, além disso, vocês chegaram na hora. – Klaudi passava levemente a mão por baixo dos brilhosos cabelos ruivos de Bella. Conseguiu arrancar um sorriso dela.
- É, mas eu não gosto nada dessa atitude dela. Passa o dia trancada, em casa. Isso não é vida! Ela precisa sair, conhecer gente, pôxa.
- Eu sei, mas...
- Com licença, senhoritas. A aula está muito entediante para vocês? – Bella e Klaudi nem perceberam a aproximação do professor, Sr. Dirk Burkhard, um senhor de 72 anos, muito conceituado dentro da Humboldt.
- Desculpe professor, é que tive um pequeno problema. Não se repetirá.
- Srta. Bella, espero MESMO que não se repita.

O professor se afastou, provocando risos tímidos em boa parte da classe.
As horas foram passando, e com elas, as aulas. Quando se deram conta, Leslie e Bella já estavam se dirigindo ao estacionamento da universidade, Klaudi acompanhando Bella.

Leslie achou que a irmã ainda estaria zangada pelo atraso, então tratou de aumentar o volume do som. As três entraram no carro, um Peugeot 306, praticamente em silêncio. Leslie sentou-se no banco traseiro, e tentou não olhar para o rosto de Bella. As brigas entre ambas haviam se tornado freqüentes, desde que Leslie passou a ficar tempo demais trancada no quarto.

Quando saíram do estacionamento, Klaudi e Bella começaram a conversar, falavam sobre coisas que iam fazer no fim-de-semana, já que era sexta-feira. Leslie ateve-se a olhar para a rua, observando o movimento, visivelmente triste.