quarta-feira, 13 de maio de 2009

Seltsame Visionen

Berlim, Março de 2009, 3:30 da manhã: Seltsame Visionen.

Era bem tarde, e Danielle/Leslie ainda viam dvds. Danielle chiou por vários serem de filmes antigos, mas, mesmo assim, assistiu todos atentamente. Leslie ria dos comentários engraçados da amiga.

- Credo, você reclama de tudo! Hahaha. Vai ser reclamona assim lá no Japão!
- Ah, para. Seu pai tem filmes da época em que Maomé ainda estava procurando a montanha!
- Besta! Para de ficar zoando o meu pai! Vaca! – Leslie deu um soco no ombro de Danielle.
- Ai!!! Isso dói, porra! - Haha, se fodeu! Isso que dá ficar zoando o meu pai!
- Ah, seu pai curte só velharia! Vai dizer que é mentira?
- E daí? Bem que você viu todos os filmes! Larga de ser chata!
- Haha, ok, ok. Acho que vou dormir, está bem tarde! – Danielle se assustou ao ver que horas era no relógio na parede. - Fica um pouco mais, logo vou dormir também.
- Tá, mas só mais alguns minutos.

Elas, então, continuaram assistindo. O filme acabou por volta das 4 da manhã, então Danielle subiu para o quarto de Leslie, para dormir. Ela ficou mais um tempo na sala, depois foi tomar um copo d’água na cozinha. Quando chegou lá, começou a se sentir estranha, tendo uma leve sensação de tontura. - Credo, tô tonta! Vou sentar antes que caia no chão. – Procurou a cadeira mais próxima e sentou-se. Ficou sentada uns cinco minutos.

- Acho que passou. Ainda bem... Leslie saiu da cozinha, e foi para as escadas. Bastou subir dois degraus que o que lhe afligia sentir novamente, sentiu. - Merda! De novo isso?! – Leslie sentiu seu corpo enfraquecer, teve de se segurar no corrimão. Antes que pudesse raciocinar sobre o que acontecia, caiu sentada no degrau da escada. Começou a sentir uma ânsia, mas não vomitou. Por um instante, sua visão ficou turva. Ela não podia ver, mas seus olhos ficaram mais opacos.

- DANI! ME AJUDA! NÃO TÔ ME SENTINDO BEM! – Gritou, desesperada pela ajuda da amiga. Danielle ouviu os gritos, e desceu correndo as escadas. Se deparou com a amiga sentada, trêmula e chorando.

- QUE FOI?? O QUE ACONTECEU??? – Pegou Leslie no colo e tratou de amparar a amiga.
- AQUILO DE NOVO! EU NÃO CONSIGO VER DIREITO! ME AJUDA!! – Leslie se agarrava em Danielle, como se estivesse tentando se proteger de algo ou alguém.
- FICA CALMA! EU TÔ AQUI! SE ACALMA! – Danielle abraçou Leslie com força, tentando passar segurança à ela.
- AI! TIRA ISSO DA MINHA CABEÇA! TIRA! POR FAVOR! – Ela começou a chorar mais alto, em pânico total.
- FICA CALMA! SENÃO NÃO POSSO TE AJUDAR! VOU CHAMAR UM MÉDICO!
- NÃO!!! NÃO ME DEIXA SOZINHA! – Antes que Danielle pudesse dar um passo, Leslie se agarrou em suas pernas, quase a derrubando na escada. - MAS VOCÊ PRECISA DE UM MÉDICO! VEM, SOBE COMIGO ENTÃO! – Danielle teve de praticamente arrastar Leslie escada acima, pois ela estava tão aterrorizada que mal tinha forças para andar. Com muito esforço, conseguiram ir para o quarto.

Danielle deitou Leslie na cama e pegou o celular. Danielle vinha de uma família de médicos, então ligou para seu pai. Como Danielle era praticamente vizinha dos Himmenfeld, seu pai, Hidetoshi Nana, logo chegou a casa.

- Danielle, o que aconteceu?? Onde você pos a Leslie? – Chegou preocupado, trazendo uma maleta com seus instrumentos médicos.
- PAI! ELA TÁ TENDO AQUILO DE NOVO!! VOCÊ PRECISA AJUDÁ-LA!
- CALMA! Me leva até onde ela está! Danielle e Hidetoshi subiram as escadas, mas ao entrarem no quarto, encontraram Leslie inconsciente. Hidetoshi subiu na cama, e checou sua pulsação. Felizmente estava normal.
- PAI! O que ela tem? – Danielle, desesperada e com lágrimas nos olhos.
- Calma filha, ela está dormindo. O pior já passou.
- Mas pai! Ela estava gritando, desesperada!
- Eu sei, mas os batimentos e a pressão dela estão normais. Acalme-se, vamos levá-la para o hospital, fazer mais exames.
- Ela vai ficar boa, então? – Danielle, enxugando lágrimas com as mãos.
- Primeiro precisamos saber o que ela teve. Se foi um ataque epilético, convulsão. Pelo que você me disse ao telefone, isso é o mais provável. Mas, aparentemente, ela está bem.

Hidetoshi pegou Leslie nos braços e levou até a rua, onde estacionou o carro. Danielle, Leslie e ele, foram para o hospital. Chegando lá, ela acordou, meio zonza, mas bem.

- O que aconteceu? Me sinto tonta.
- Danielle me ligou, disse que você estava tendo uma crise. Te trouxemos pro hospital.
- Leslie! Você tá bem?? Quase me matou de susto! – Danielle olhou Leslie com olhos preocupados, mas viu que ela parecia melhor.
- Ai, acho que sim. Não lembro direito o que houve...
- Bom, você vai ficar aqui, em observação. Quando cheguei na sua casa, você estava dormindo. Sua pressão está boa, mas por precaução, vamos fazer uma bateria de exames.
- Tudo bem... – Leslie estava confusa. Lembrava de algumas coisas do que havia ocorrido, mas elas eram bem espaçadas. Tiraram sangue, fizeram ressonância. Os exames deram normais, então liberaram Leslie para voltar pra casa.

Como os Nana e os Himmenfeld eram amigos, Dr. Hidetoshi sugeriu que fossem para sua casa, assim não ficariam sozinhas. As garotas aceitaram. Ele as levou de carro até lá, por volta das oito da manhã. A casa dos Hidetoshi pouco lembrava o oriente. Era grande e espaçosa, mas decorada de maneira simples.

- Vem, L. Você vai comer alguma coisa, depois te deito no meu quarto. – Danielle levou Leslie para a cozinha, para comer algo. Depois de comer, subiram para o quarto. Leslie se deitou, meio a contragosto.
- Eu tô bem, Dani. Já passou.
- Ah! Nem vem! Você estava desesperada àquela hora! Pode ir deitando! Vou ligar pra Bella, ela tem que saber. - Espera! Não liga! Ela vai ficar no meu pé!
- “Não liga” o caramba! Ela é sua irmã! Ela TEM que saber o que aconteceu!
- Sério! Não liga! Não quero que ela saiba! Não vai entender! - Vai sim! A gente conta tudo o que aconteceu! Não quero passar por isso de novo!
- Você não entende! A Bella vai achar que eu pirei!
- Vai porra nenhuma! Vou ligar! A mãe de Danielle, Yuna, passava pelo corredor e escutou a discussão. Tratou de entrar no quarto e acalmar os ânimos.
- Meninas! Fiquem calmas! Pra que brigarem por isso? Danielle, liga lá de baixo. A Bella tem que ser avisada, SIM. É a mais velha, é a responsável.
- Mas Yuna! – Leslie se levantou, abrindo os braços em forma de protesto.
- Sem mas nem meio mas, Leslie-chan! Como sua madrinha, eu tenho autoridade! Então vai deitando aí e trate de descansar!
- ... – A loira teve de acatar a ordem.
- Agora, me conta o que aconteceu. A Dani já me contou o que aconteceu com você da outra vez.
- Não posso!
- Claro que pode, meu amor. Você está entre amigos.
- Mas...
- Não me venha com “mas”, te vi crescer, menina! É quase como uma segunda filha. – Danielle era filha única.
- Então... ...Você sabe?
- Sei. Sei de tudo. E te digo: é mais fácil se você puder contar para alguém. – Passou a mão nos cabelos desarrumados da garota. – Como diria minha amiga Tomoko: “Nossos problemas são do tamanho que fazemos eles serem”. E no seu caso, isso pode ser encarado como algo bom.
- Não sei... Tô com medo disso.
- Não precisa, eu estou aqui, não estou?
- Sim, mas... – Antes que Leslie pudesse continuar, Danielle voltou.
- Pronto, já falei com ela. Disse que vai vir pra cá o quanto antes.
- Bella, sempre irresponsável... Ai, ai, ai... – Yuna adorava ambas as irmãs, mas sempre via um certo desleixo por parte de Bella. A achava um pouco ausente na vida da irmã mais nova.
- Putz, ela não vai me deixar em paz!
- Vai sim! Se ela pegar no seu pé, vai se ver comigo! Agora, conta o que houve.
- ...
- L, conta! Minha mãe pode te ajudar!
- ... – Começando a chorar.
- Conta pra mim, vai se sentir melhor se desabafar.
- Mãe, acho melhor esperar a Bella chegar. Assim ela fica sabendo de tudo pela Leslie, mesmo.
- Tem razão, Dani. Assim Leslie terá mais tempo para se preparar. Fica com ela, que vou preparar um chá.

Yuna foi preparar o chá, e as garotas ficaram conversando.

- Você não devia ter ligado. Já até sei o que a Bella vai dizer.
- Não começa! Ela é sua irmã, precisa saber!
- Porra, Dani! Você sabe que ela não vai entender!
- Se não entender, problema dela! Para de agir feito criança!
- Dani, você acha que é fácil pra mim? Não é você que fica tendo essas coisas!
- Agora você está sendo injusta! Eu tô querendo te ajudar e você faz isso? Porra, eu te amo, mas eu não ADMITO que você aja assim comigo, ainda mais depois de tudo o que eu passei pra te ajudar! – Danielle ficou muito irritada, e deu um tapa no rosto de Leslie. Ela não reagiu, pois percebeu que foi infeliz no que disse. Mal sentiu a dor do tapa, porque ficou surpresa ao ouvir o que a amiga disse.
- Você me ama?
- Amo! E amo muito! Mas não vou ficar aqui sendo destratada por você!
- Espera! Desculpa! Eu não quis dizer aquilo!
- Mas disse! Aff, tem horas que você parece mais criança que a Yumi! Deita aí e dorme, vou tomar um banho, porque estou um lixo! – Danielle saiu do quarto e foi para o banheiro, batendo a porta com força. As palavras dela ficaram ecoando na cabeça de Leslie.

Alguns minutos após Danielle ir para o banho, Yuna voltou. Escutou a porta bater, mas não tocou no assunto.

- Tome, este chá vai te relaxar. Coma os biscoitos também. – Entregou um pratinho com biscoitos e a xícara de chá a Leslie. Ela bebeu sem reclamar. Comeu os biscoitos também.
- Obrigada, estava bem gostoso.
- De nada, querida. Bom, se sente preparada agora?
- Ai, Yuna, é muito complicado...
- Então vamos descomplicar. Desde quando você tem isso?
- Começou tem duas semanas. Eu estava em casa, e, DO NADA, tive um clarão. Quando dei por mim, estava deitada no chão da cozinha.
- Mas você se lembra o que aconteceu durante o “clarão”?
- Lembro... – Colocando a mão na testa.
- Então, conte-me tudo. – Yuna dava goles demorados no chá, enquanto esperava Leslie se pronunciar. Estava muito tranqüila.
- Eu... Eu vi... E U ME VI MATANDO A BELLA! – Grito de desabafo.
- Você deve ter tido um pesadelo, querida. – Yuna afagou os cabelos de Leslie.
- NÃO! EU VI! ESTAVA CONSCIENTE! EU VI TUDO! EM DETALHES!
- Calma! Vamos devagar! Me conta exatamente o que aconteceu na sua visão.
- Yuna, foi terrível! Eu me vi, esfaqueando ela, sem motivo algum!
- Mas como? O que acontecia? – Yuna ainda estava tranqüila, até demais.
- Ela estava na cozinha de casa, quando eu chego, pego uma faca, e simplesmente esfaqueio ela, pelas costas!
- Você pode ter tido uma alucinação, muitas pessoas tem.
- Não, Yuna! Não foi! Eu sei o que vi! Eu não estava sonhando nem nada disso!
- Querida, essas coisas devem ter alguma explicação. Você simplesmente não tem visões, ainda mais deste tipo. Melhor procurarmos um psicólogo, psiquiatra. Alguém deve saber o que isso significa. Está com raiva da Bella?
- Não, esse é “o problema”. Nós temos brigado bastante, e eu fico com medo de acabar fazendo o que vi, entende? Por isso não queria falar pra ela.
- Leslie, eu te entendo, perfeitamente. Mas, mesmo assim, ela tem direito de saber o que acontece. Antes que me esqueça, o que aconteceu desta vez? Você falou da primeira visão, certo?
- Sim. Foi. Desta vez eu me vi arrastando o corpo dela pela casa. O sangue sujando todo o chão. – Lágrimas. – E eu ria! Estava feliz por ela morrer!
- Vem cá, deixa eu te abraçar. – Leslie sentou-se no colo de Yuna, que a acolheu, como uma mãe acolheria uma filha. – Já passou. Nós vamos resolver esta situação, você vai ver.
- Eu q-quero que isso pare! - Vai parar, meu amor, vai parar.

Ficaram assim por uns bons minutos, enquanto Danielle não voltava do banho. Assim que ela voltou, atendeu uma ligação de Bella, no celular. Ela dizia que já estava chegando. A situação não foi simples de ser explicada. Bella ficou atônita ao ouvir da própria irmã que havia se visto matando-a. Ficou impressionada pelo detalhamento da cena.

- Você deve me odiar muito, pra pensar algo assim! – Era visível que Bella havia ficado muito magoada com a situação. Como Leslie havia previsto, ela não tinha entendido.
- Bella, ela não pensou em matar você, ela teve uma visão disso, é diferente! Muitas pessoas tem. – Yuna.
- Mas Yuna, como ela pode ter uma “visão” de uma coisa dessas? Matar a própria irmã e ainda rir?? Ah! É demais pra mim!
- Não seja ignorante, menina! Você é instruída o suficiente para saber que ter visões é algo até comum! Além do que, você sabe muito bem que ela não te odeia!
- E como eu posso ter certeza agora?? Me diz?? Se ela “viu” isso, por que não faria? Já que ela sabe que teria êxito??

Yuna se levantou, deixou Leslie sentada na cadeira, e deu um tapa no rosto de Bella. O barulho da mão batendo contra o rosto ecoou pelo corredor.

- NÃO ME FAÇA TER QUE TE DAR UM CORRETIVO, BELLA HIMMENFELD!
- VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME BATER! NÃO É MINHA MÃE! – Bella, segurando o rosto.
- TEM RAZÃO! SE EU FOSSE, VOCÊ NÃO SERIA TÃO FUTIL E INFANTIL! AGORA SENTA QUE EU AINDA NÃO TERMINEI! - Yuna apontou para a cadeira onde Bella estava sentada, e ela sentou-se novamente.

Yuna era capaz mesmo de “corrigir” a garota.

- Ótimo! Agora podemos conversar civilizadamente! Danielle apenas observava a discussão, prudentemente. Yuna era uma pessoa muito amável e gentil, mas não tolerava insolência. Se fosse realmente preciso, bateria em Bella. O tempo foi passando, enquanto Yuna tentava convencer Bella da situação da irmã. Embora fosse inteligente, Bella era muito cabeça dura. Dificilmente mudava de opinião sobre algo. Yuna, felizmente, se sabia fazer convencer.

- Entendeu agora, Bella? – Yuna estava começando a ficar impaciente perante a teimosia da ruiva.
- Yuna, você não vê? Ela me odeia! Eu tento ser uma irmã legal, gostar das coisas que ela gosta, e olha como ela me paga!
- Ai, Bella, você é mais teimosa do que uma mula. Leslie não odeia você! Pare de teimosia!
- Como não?? Que irmã se vê matando a outra e ainda rindo? Se isso não for ódio, então, me desculpa, mas eu não sei o que é!
- Escuta aqui, garota. Eu não vou ficar tolerando você me ironizar! Você é mesmo uma irresponsável egoísta! Não está vendo que estou te dizendo que o que ela teve foi uma visão? Será que você fundiu o cérebro??
- FILHA DA PUTA! VADIA! EU NÃO TE ODEIO! EU TIVE UMA PORRA DE UMA VISÃO! SERÁ QUE VOCÊ É TÃO BURRA QUE NÃO CONSEGUE ENTENDER O QUE É ISSO? CHEGA! VAI EMBORA! – Leslie, já exausta de ouvir tantos gritos e de se sentir um monstro, na visão da irmã. Ela apontou pra porta, mandando a irmã sair.
- EU VOU SIM! FICA AÍ! ME ODEIA MESMO! NUNCA MAIS CHEGA PERTO DE MIM! – Bella pegou sua bolsa e foi embora, num mix de lágrimas de tristeza e de raiva.

Leslie se descontrolou por alguns segundos, chegou a dar um soco na parede, mas foi contida por Yuna e Danielle. O que restou da fracassada tentativa de explicar o ocorrido a Bella, foram lágrimas de tristeza, raiva e frustração. Demorou para os ânimos na casa voltarem ao normal, mas ficou decidido que Leslie passaria a morar lá até que seu pai retornasse da viagem. O restante do dia foi melancólico, como não poderia deixar de ser.