O sol. Ponto de início e também de final de um dia. Dia esse completo por caos, trânsito, estresses urbanos. As pessoas se levantam para trabalhar, se deitam para dormir, na frenética rotina do nascer e pôr-do-sol, escravizadas pelo tic-tac incessante do relógio. Já diziam: “O tempo não para”.
Para muitos, o tempo é uma madrasta severa, pois ele nunca te dá tempo para nada. Temos tempo de não ter tempo, e o tempo nunca esquece de cobrar seu preço.
Berlim, Março de 2009, 7 da manhã.
- Ei, acorda, dorminhoca! Vai se atrasar!
- Mmmm... Só mais cinco minutos...
- Levanta logo! Não vou te dar carona se ficar aí dormindo! – Esbraveja uma garota ruiva, de longos cabelos lisos, olhos verde-claros e lábios volumosos.
- Droga... Já vou! – Ainda deitada, murmura uma garota loira, cabelos curtos, bagunçados.
- Vamos, te espero na cozinha.
- Mmm... – A loira joga o cobertor por sobre o corpo, mas sabe que precisa levantar ou perderá a carona para a universidade.
Respectivamente, elas são:
Bella Himmenfeld, 20 anos, ruiva, olhos verde-claros, trajando um estilo “gótico leve”, usando vestido preto, longo, rendas, mas pouca maquiagem. E claro, munida de uma bela bota cano-alto, salto. Bela, como o próprio nome já sugere. 1 e 70 de altura, 57 quilos.
Leslie Himmenfeld, 19 anos, loira, olhos igualmente verde-claros, cabelos curtos e repicados, algumas mechas negras, calça jeans desbotada e rasgada, justa, regata igualmente justa sobreposta por outra, branca e preta, olhos mais carregados de delineador, coturno. 1 e 72 de altura, 60 quilos.
Ambas com piercings, principalmente lábios e umbigo, mas fisicamente não muito parecidas.
- Até que enfim desceu! Eu já ia sair. – Bella balança as chaves do carro em sinal de pressa.
- Ah, nem demorei tanto assim vai... Não foi você que ficou a noite toda estudando!
- Se fosse mais organizada, não precisaria ter ficado estudando a noite toda, “lorinha”. – Bella lança um olhar de “eu não te disse?” para Leslie, que retruca franzindo os lábios.
- Pega alguma coisa pra comer e vamos, já estamos atrasadas!
- Ok, “mamãe”. – A “lorinha” rapidamente pega um bolinho, uma mochila, e sai.
Ambas se dirigem até a garagem da casa, casa que ambas dividiam com o pai. A casa era ampla, 3 quartos, dois andares, estilo colonial alemão, bem cuidada e decorada, na certa pelos caprichos femininos.
- Droga, o trânsito está péssimo! Eu te disse pra se apressar! – Bella estava mais mal-humorada do que costumava. Normalmente ela tinha bom-humor, mesmo pela manhã.
- Ah Bella, caramba, né? Eu me atrasei poucos minutos. Não é culpa minha o trânsito estar carregado desde cedo.
- Se você não ficasse a noite toda na internet, teria acordado mais cedo e a gente já teria chegado.
- Ah, para, já estamos quase na faculdade! Que implicância, droga! – Leslie pega os fones do Ipod e liga o aparelho no máximo, detestava discutir com Bella.
Quando as duas finalmente chegam a Humboldt, as pessoas ainda estavam entrando pelos enormes portões que cercavam a construção de 1810.
Bella estava no segundo ano de Direito e Leslie no primeiro de Psicologia. Ainda na entrada, Bella seguiu ao encontro de Klaudi, sua namorada, enquanto Leslie seguiu para sua sala, sozinha, como era de costume.
A primeira aula de Leslie era Genética e Evolução Humana, algo que a fascinava. Sempre gostara de imaginar como a estrutura humana foi criada e as modificações que sofrera ao longo do tempo.
Enquanto isso, Bella e “Klaudi”, apelido de Klaudia, seguiam para a aula de Teoria Geral do Estado e Constituição, que ambas achavam chata, mas fundamental.
- Ai, Klaudi, a Leslie está me dando nos nervos! Hoje a gente se atrasou porque ela ficou até tarde na internet. Tem horas que eu queria dar um soco nela. – Bella, apesar de se dar bem com a irmã, odiava a vida reclusa que ela havia escolhido. Tentava fazer ela se enturmar, porém, em vão.
- Calma, amor. Você sabe que ela se diverte assim, além disso, vocês chegaram na hora. – Klaudi passava levemente a mão por baixo dos brilhosos cabelos ruivos de Bella. Conseguiu arrancar um sorriso dela.
- É, mas eu não gosto nada dessa atitude dela. Passa o dia trancada, em casa. Isso não é vida! Ela precisa sair, conhecer gente, pôxa.
- Eu sei, mas...
- Com licença, senhoritas. A aula está muito entediante para vocês? – Bella e Klaudi nem perceberam a aproximação do professor, Sr. Dirk Burkhard, um senhor de 72 anos, muito conceituado dentro da Humboldt.
- Desculpe professor, é que tive um pequeno problema. Não se repetirá.
- Srta. Bella, espero MESMO que não se repita.
O professor se afastou, provocando risos tímidos em boa parte da classe.
As horas foram passando, e com elas, as aulas. Quando se deram conta, Leslie e Bella já estavam se dirigindo ao estacionamento da universidade, Klaudi acompanhando Bella.
Leslie achou que a irmã ainda estaria zangada pelo atraso, então tratou de aumentar o volume do som. As três entraram no carro, um Peugeot 306, praticamente em silêncio. Leslie sentou-se no banco traseiro, e tentou não olhar para o rosto de Bella. As brigas entre ambas haviam se tornado freqüentes, desde que Leslie passou a ficar tempo demais trancada no quarto.
Quando saíram do estacionamento, Klaudi e Bella começaram a conversar, falavam sobre coisas que iam fazer no fim-de-semana, já que era sexta-feira. Leslie ateve-se a olhar para a rua, observando o movimento, visivelmente triste.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Herz - Primeiro capítulo
Postado por .Str.s.crm. . às 16:50


