Londres, 21 de Março de 2009, 09:00 da manhã: Willkommen, Ausländer!
- Nossa! Finalmente cheguei! Não agüentava mais ficar sentada! – Finalmente Leslie chegava a capital inglesa. A viagem não era das mais extensas, mas ficar parada muito tempo a incomodava.
O vôo foi tranqüilo, exceto por um rapaz que insistia em olhar por dentro do decote da blusa da garota. Leslie não deu muita importância para a insistência do rapaz, que aparentava uns quinze anos. No vôo, não teve oportunidade de comer algo, então estava faminta.
Como procedimento de praxe, passou pela alfândega, mostrou seu passaporte, retirou suas malas, que estavam pesadas, e seguiu. Empurrar o carrinho do aeroporto, que estava bastante movimentado, foi fácil. Leslie esperava encontrar alguém para levá-la até sua nova moradia, mas não fazia idéia de como seria esse “alguém”.
Enquanto andava pelo saguão, procurava por alguma placa com seu nome escrito. Não demorou muito, e se deparou com uma figura exótica segurando placa com seu nome. De longe, não conseguiu ter certeza se a pessoa era homem ou mulher, apenas notou a estatura e a pele branca. Do lado dela, havia uma garota.
As duas eram, respectivamente:
Uma garota de aproximadamente a mesma altura de Leslie, olhos verde-claros, cabelos negros e curtos. Fazia uma cara de aflita, como que esperasse muito a chegada de alguém. Tinha um piercing no nariz, corpo bonito.
A outra pessoa era magra, alta. Estava tranqüila segurando a placa, enquanto fumava um cigarro. Tinha snakebites, usava creepers, cabelos roxos e olhos incrivelmente cinzas. Trajava uma camisa com Pedo Bear estampado. As duas conversavam.
Leslie sentiu um frio na barriga ao ver sua nova “família”, e respirando fundo, resolveu se aproximar. Parou em frente as duas, meio sem jeito. As palavras custaram a sair.
- H-hi... Nice to me-eet you. – Estendeu sua mão.
- Me too. Kohaku. – A estranha figura retribuiu e apertou a mão de Leslie.
Depois, ela fez o mesmo com a outra garota, mas já mais aclimatada.
- Hi, nice to meet you. – Colocou seu melhor sorriso no rosto.
- Hi! How are you? My name is Kasumi. I was to be the exchange student, but I decided to stay here, hehe. – A garota respondeu, alegremente.
Apresentações feitas, as três seguiram rumo à saída do aeroporto. O tempo em Londres estava mais quente do que em Berlim, mas pouca coisa. A sensação térmica devia ser de uns 18 graus. Foram até um Honda Civic preto, e seguiram rumo ao apartamento de Kohaku. No caminho, a garota de cabelos curtos, Kasumi, ficou conversando com Leslie sobre como era a Alemanha e o porquê de ter desistido de viajar. A outra, Kohaku, manteve-se minimalista no que dizia. Aparentava ser bastante séria.
Elas moravam em um edifício alto, na Arlington Road, não muito distante do centro. O apartamento ficava no quarto andar, mesmo os japoneses considerando este um número de azar.
No elevador, Leslie observou Kohaku, sob alguns olhares curiosos de Kasumi. Kohaku era uma moça bastante alta, pouco mais de vinte anos, magra e aparentava bastante segurança. As três desceram já de cara para a porta do apartamento. O apartamento, basicamente, era em preto-e-branco. Móveis modernos, impecavelmente limpos.
Leslie carregava uma mala, Kohaku e Kasumi as outras duas. Decidiram que ela dormiria no escritório, pois o apartamento, embora grande, dispunha de apenas um quarto, que era dividido por Kohaku e Kasumi, que eram irmãs. Nada semelhantes, por sinal.
Meio sem graça, colocou suas coisas no closet, na parte de Kasumi, e tratou de se familiarizar com as duas.
A primeira noite no apartamento não foi das mais fáceis. Estar ao lado de pessoas de costumes diferentes não era novidade, mas era fora de seu país, de tudo que era familiarizada. Ao menos ela se sentia bem-vinda. Leslie observava como Kohaku e Kasumi se comportavam, pois queria se enturmar o quanto antes, quebrar o gelo. Kohaku despertava certo medo nela, pela aparência sempre firme e os olhos frios como icebergs. Mesmo sentindo-se intimidada por ela, via certa beleza nos cabelos roxos, estranhamente naturais, e nos mesmos olhos cinzas que ela ostentava. Kasumi já era mais expansiva, Leslie e ela já conversavam sobre diversos assuntos, tais como, moda, paixão que Leslie também tinha, e música, igualmente apaixonada por.
Kasumi ficou de levar Leslie a lugares importantes da cidade, ser sua guia turística. Também ficou muito interessada pela tatuagem que Leslie tinha na costela, uma flor de lótus.
Kasumi e ela ficaram conversando até altas horas da noite, quando Kasumi, já caindo de sono, resolveu se deitar. Kohaku se disse notívaga, então era normal que passasse as noites acordada, muitas vezes apenas observando o céu costumeiramente cinza londrino. Ela vestia uma blusa regata, e pelas aberturas Leslie conseguiu ver um Kanji que ela tinha tatuado nas costas, era “Shi”, morte em japonês. A convivência com os Nana a deixou bastante inteirada sobre a cultura do país, mas não evitou que fosse surpresa pela presença do número quarto no andar do apartamento, número do mesmo e na tatuagem nas costas de Kohaku.
- Quatro... Por que você gosta tanto desse número? Que me lembre, os japoneses consideram um número de azar. – Leslie indagou, enquanto observava a vista pela janela.
- Não gosto dele. Na verdade, ele me persegue. – Kohaku respondeu, enquanto acendia um cigarro.
- Como assim “te persegue”? – Leslie, afastando-se da fumaça do cigarro.
- Quando me mudei pra cá, este era o único apartamento disponível. Também nasci no dia quatro de abril. Várias coisas me envolvem com este número, chega a ser engraçado... Ah, e sobre a tatuagem: eu preferi tatuar a única certeza que temos.
- Nossa, realmente, esse número deve ter alguma ligação com você. – Como Leslie já havia experimentado algo sobrenatural, não achava impossível haver realmente alguma conexão.
- É, ele tem. Até meu apelido tem quatro letras. Pode me chamar de Haku.
- Ok, então, Haku. Seus olhos... ...São naturais? Eles me assustam, haha. – Leslie, tentando quebrar o gelo.
- São sim. Os da Kasumi também. Toda minha família tem olhos claros. Deve fazer uns quatrocentos anos que isso acontece... Vai entender... – Haku, reticente.
- Nossa, sua família tem quatrocentos anos? Realmente assustador! – Mexendo no piercing do lábio.
- Dos arquivos que minha família tem, ela deve ter uns oitocentos anos. Quem sabe em outra vida eu dei um rolê com Buda ou Jesus? – Fumando.
- Nossa, haja registro histórico. Sua família deve ter sido muito ativa na época do Japão feudal, então. – Sentou-se num sofá.
- Sim. Pelos registros bizarros que deixaram, teve uma época que a família foi composta por um casal de irmãos, e um deles lutou contra um poder maligno de uma torre. Os caras acharam que o registro era pra escrever mangá. – Jogando as cinzas num cinzeiro.
- Poder maligno? Você crê nessas coisas? – Leslie lembrou de suas visões, outra vez.
- Ah, nisso, sim. Sei por experiências não muito legais.
- Então você acredita ser possível uma pessoa ter visões?
- Sim, eu tenho umas bem severas.
- Erm, que tipo? Só por curiosidade. – Infelizmente, Leslie não fazia muito o tipo discreta, quando ficava curiosa com algo.
- Misturam realidade e fantasia, meu passado e futuro. Outra pessoa e eu. Infelizmente algumas se tornam reais, eu acabo sentindo coisas da visão.
- E isso não te assusta?
- Não, tô de boa. – Haku olhou Leslie com olhos tranqüilos.
- Nossa, você realmente é bem calma.
- Na medida do possível, sim. Não me recordo da última vez em que fiquei nervosa, isso se já fiquei alguma vez.
- Você e Kasumi são totalmente diferentes. Ela estava tão nervosa no aeroporto, acho que até mais do que eu... – Leslie sentou mais na frente do sofá, curvando o corpo para a frente e segurando ambas as mãos.
- Kasumi e eu somos irmãs “recentes”. Ela e eu fomos separadas a vida inteira, até que ela teve a iniciativa de me procurar pela Inglaterra.
- Entendi. Vocês parecem se dar muito bem, ao contrário de minha irmã e eu.
- É, tirando o fato de ela ser irresponsável e atrapalhada, nos damos bem, sim. – Acendendo outro cigarro.
- Hahaha, ela é bem alegre, gostei bastante dela. Lembra uma amiga minha, que também é japonesa.
- Japonesa? Normalmente garotas japonesas são bem animadas, mesmo. Na sua idade eu não tinha muitos motivos para ser animada... ...Passei por um regime estudantil bem severo. Você é alemã, né?
- Sou nipo-germânica, por mais estranho que possa parecer. Nasci na Alemanha, mas minha mãe era japonesa, então tenho uma certa ligação com o país desde o nascimento. Estranho que convivo com várias pessoas japonesas desde que me entendo por gente.
- Que legal. Então acho que você já deve manjar os costumes. Não vai estranhar o que a gente come aqui, também? E a propósito, eu falo alemão fluente, caso você se sinta mais confortável.
- Sério? Já deve ter ido a Alemanha várias vezes, então. Ah, meus vizinhos são japoneses, e somos todos bem próximos. Comida japonesa pra mim, é normal. Prefiro falar em inglês mesmo, senão vou continuar falando “inglês macarrônico”. – Riu.
- Eu já morei em Berlim. Depois que minha namorada morreu, me mudei pra cá. Adoro a Alemanha.
- Namorada? Você é bi? Minha irmã é. Pelo visto, você já morou em tudo quanto é lugar! Deve ser o máximo isso!
- É, eu sou, sim. Eu já morei na Alemanha, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, e atualmente, aqui. Ah, e claro, Japão. Nasci em Kyoto.
- Kyoto? Já fui lá uma vez, mas era bem pequena. Como minha mãe era japonesa, íamos lá duas vezes por ano, visitar a família.
- É um lugar muito bonito. Aconselho você a ir lá mais vezes. Se quiser dar uma passada na casa da minha família lá, é só falar que me conhece e procurar a família Hakushima.
- Não é má idéia. Assim que eu tiver um tempo, farei isso. – Olha o relógio na parede. – Nossa, já são duas da manhã! Vou dormir, estou morta de sono! Boa noite, Haku.
- Boa noite. Cuidado com a calcinha de ursinho jogada no corredor.
- Pode deixar! Leslie então se dirigiu ao banheiro, escovou os dentes e tratou de ir dormir.
Dormir num colchonete não era a coisa mais agradável do mundo, mas ao menos ela ficou com o escritório à sua disposição. Pôde aproveitar para entrar na internet e mandar e-mails para seu pai, Danielle e outros amigos. Até pensou em escrever para Bella, mas a mágoa ainda falava mais alto. Como Bella também não havia mandado e-mail algum, resolveu deixar a coisa do jeito que estava.
Leslie tinha o hábito de dormir cedo, por causa da faculdade, mas como a mesma encontrava-se em recesso, pôde aproveitar e passar mais tempo de sua primeira noite na Inglaterra acordada. Saiu do escritório, vestindo um pijama e aproveitou para dar uma olhada mais profunda no apartamento de Haku. Naquela altura já passava das 3 da manhã, e tanto Haku quanto Kasumi já haviam ido dormir.
Kasumi havia dito que levaria Leslie para um “tour” pela cidade no dia seguinte, então ela ficou ansiosa para que a hora do passeio chegasse.


