sexta-feira, 8 de maio de 2009

Berlim, Março de 2009, meio-dia: Amada solidão.

O relógio já marcava meio-dia, e Leslie ainda dormia. Virou a madrugada on-line, e nem desligou o notebook. Quando acordou, a casa ainda estava vazia.

- Pelo visto aquelas duas não vão voltar tão cedo... – Ficou feliz, já que sentia uma necessidade incomum de ficar só.

Desceu, tomou café da manhã, fez os afazeres domésticos e voltou-se para um projeto pessoal: um mangá chamado “Herz”, que tratava sobre uma menina que em situações de estresse invocava espíritos que davam poderes especiais a ela. Não havia mostrado para ninguém da família, pois achava que não entenderiam. A personagem do mangá se chamava Ryoko Tzukawa, tinha 13 anos e era uma estudante comum, até que um dia ela despertou uma mediunidade, quando era vítima de maus-tratos pelo pai. Ela perdeu a consciência, e quando voltou a si, o pai estava caído no chão, morto.

- Putz, preciso acertar o rosto da Ryoko, ainda está muito fino! Acho que preciso pesquisar mais sobre o Japão, sobre os traços típicos dos japoneses. Vamos ao note... – Voltou-se ao notebook, começando a pesquisar sobre a cultura e filosofia japonesas. Procurou saber também sobre os traços comuns dos japoneses e sobre nomes de famílias. – Hummm, vou começar por aí. Ela ainda está muito ocidental, preciso mudar isso. Onde é que pus meus lápis? Sempre esqueço!

Enquanto desenhava, Leslie conseguia esquecer de fatos recentes, além da falta que sentia da mãe. Mas o que mais a afligia, foi o que aconteceu cerca de duas semanas atrás. As horas passaram enquanto desenhava, e finalmente estava ficando satisfeita com os traços da personagem do mangá.

- Agora sim! Agora ela parece japonesa! Só preciso fazer direitinho a cena onde ela mata o pai. Haha, curti! – Ryoko acabou sendo uma garotinha baixa, roupa de colegial, olhos cinza, longos cabelos negros, aparência triste.
Terminou de desenhar a cena, e nisso já eram 3 da tarde.

- Puta, que fome! Vou comer algo antes que eu caia dura aqui! – Desceu correndo as escadas, pegou um pacote de salgadinho na cozinha e passou a devorar tudo, como alguém que não viu comida por dias.Acabado o banquete, Leslie resolveu tomar banho e sair. O dia não estava muito frio, e ela gostava de andar pelo centro da cidade. Sempre parava nas lojas de música para conferir as novidades.

- Vou dar uma passada pela Titamusik, estou mesmo precisando de cds novos! Só espero que eles tenham o novo do Purple Fog Side! – Eufórica.

Bella e Klaudi haviam levado o carro quando saíram, então Leslie só teve a opção de ir de ônibus. Uma chuva fina caia, molhando os cabelos curtos dela. Leslie colocou sua jaqueta militar preta, o qual ela amava, calçou o coturno e esperou no ponto. Os minutos de espera foram poucos, mas suficientes para ela sentir o frio. Quando o ônibus veio, ela sentou-se à janela, para aproveitar a vista chuvosa.

Da casa de Bella e Leslie ao centro a viagem não passava de dez minutos. Quando o ônibus chegou ao seu destino, Leslie colocou o capuz da blusa, aumentou o volume do Ipod e caminhou por entre as pessoas apressadas. Umas se escondendo da chuva, outras indo para compromissos importantes. Em meio a tudo isso, vários olhares notavam a bela garota de capuz e olhar profundo. Alguns sorrisos se abriram, outros mantiveram-se fechados pelo ar frio. Leslie entrou numa rua extensa, que terminava na esquina da loja.

A Titamusik era uma loja antiga em Berlim, cujo Johan levava as meninas para ouvirem música desde cedo. Johan, apesar da vida corrida, era guitarrista, gostava de blues. Sempre que iam a loja, as meninas se lembravam de seu pai tocando enquanto elas viam e ouviam, maravilhadas pelos belos acordes.
Quando Leslie chegou a Titamusik, se deparou com Danielle, que trabalha lá, como atendente.

- Leslie! E aí? Tudo bem? Faz um tempinho que a gente não se vê! – Danielle veio sorridente até Leslie, eram amigas desde que conseguiam se lembrar, e isso já tinha mais de uma década.
- Oi Dani! Tudo bem, sim, e você? – Leslie deu um leve beijo na bochecha de Danielle, que retribuiu o carinho.
- Ah, eu estou bem, trabalhando e estudando muito! E você? Como vai na Humboldt? Aqueles dinos estão pegando muito no seu pé? Hahaha. – Danielle era uma garota bastante alegre, gostava muito de conversar e ler, especialmente mangás, paixão que dividia com a própria Leslie.
- Nossa, e como, viu... Principalmente o professor de genética. Ele praticamente quer que clonemos uns ao outros! Tem horas que sinto vontade de mandá-lo pr’aquele lugar! – Sempre que se viam, as conversas eram longas, divertidas. Falavam de todo o tipo de assunto abertamente, eram quase como irmãs.
- Putz, sei como é. Comigo, não é diferente! Os velhos quase comem o meu rim! Eu achei que ia curtir programação, mas só falta me açoitarem na aula!
- Hahahahaha, é foda, cara! Eu AMO psicologia, mas as aulas são muito difíceis. E você sabe, né? Logo vou pra Inglaterra, fazer intercâmbio. Meu inglês é pífio!
- Ah, mas eu te disse... Eu poderia muito bem treinar com você, só você pedir.
- É, eu sei, mas meu pai quer porque quer que eu fale como uma “inglesa típica”. Vai entender...
- Falando nele, ainda está viajando?
- Sim, fica em Paris mais duas semanas.
- E a Bella? Ela veio aqui uns dois dias atrás. Falou que você andava estranha, mas não contei nada pra ela.
- Ah, a gente anda naquelas... Brigamos um dia, quase nos matamos três. Ainda bem que você não contou, não a quero mais ainda no meu pé!
- Mas você ainda tem?
- Faz uns dias que não... – Leslie olhou para Danielle com uma cara de preocupação.
- Você deveria procurar um médico. – Danielle pos as mãos nos ombros da amiga, confortando-a. – Mas vem! Chegaram uns cds bacanas!
- Ok!

A loja era grande, várias estantes, repletas de cds. Clássicos, rock, pop, música folclórica e a que Leslie brilhava os olhos: música eletrônica. Além de cds, a loja também dispunha de instrumentos, acessórios como camisetas, bonés, cintos e spikes, broches e adesivos. Tinha também uma área para escutar cds. Leslie passava boa parte dos dias lá, ouvindo música e estudando. Os donos da loja a conheciam e ela era bem-vinda.

- Nós temos aquele que você queria. Chegou ontem! – Danielle apontou para a estante onde o cd estava.
- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! NÃO ACREDITO!! EU ESTOU ESPERANDO POR ESSE CD TEM UM TEMPÃO! – Leslie praticamente se atirou sobre a estante, pegando o cd nas mãos. Parecia uma garotinha com um brinquedo novo.

O cd se chamava “Music For Indigo Kids”, do Purple Fog Side, uma banda russa de darkwave, mas que também cantava em inglês.

- NOSSA! SÓ DOZE EUROS?? VOU LEVAR! – As garotas correram para o caixa, onde Leslie deu os doze euros. Danielle embalou o cd para presente, e pos numa sacola da loja.
- Haha, calma! Agora é seu!
- Cara, até que enfim! Esperei muito por ele!
- Ei, hoje eu saio às três, aí a gente podia dar umas voltas, que acha?
- Eu topo, estava fazendo nada em casa mesmo, estou sozinha esse fim-de-semana. Se quiser, dorme lá.
- Beleza então! Vou sim!

Leslie então foi para a área com os fones de ouvido, para estrear o cd que havia acabo de comprar, enquanto Danielle atendia clientes. Normalmente eram três atendentes, mas naquele dia ela estava sozinha.Leslie então se perdeu no mundo das batidas do darkwave. Quando se deu conta, já era hora de fechar a loja.

Danielle e ela, então, foram comer num shopping próximo. Conversaram, riram, depois foram ao cinema. Assistiram “Quem quer ser um milionário”, sucesso daquela semana.Findado o filme, resolveram ir para a casa de Leslie. Ficaram conversando no ponto, esperando o ônibus. As pessoas passavam, umas indo, outras vindo, mais algumas ficando, mas elas entretinham-se muito mais nas conversas e risos, o que chamava a atenção alheia, não apenas pela beleza de ambas.

Danielle era uma garota de pele clara, 1 e 75, corpo bonito. Apesar de japonesa, era loira natural. Calça preta, de jeans, rasgada nos joelhos. All Star vermelho nos pés, camiseta branca, escrito “Björk”, na cor preta, jaqueta jeans preta. No trajeto do ônibus para casa, Danielle mostrou fotos de sua irmãzinha, Yumi, que estavam na câmera. Ela e Leslie ficaram vendo fotos e tirando fotos, sob o olhar curioso dos passageiros.

Quando chegaram a casa, ficaram um tempo conversando no sofá.

- Hahaha, olha! Aquele velho bigodudo saiu numa das fotos! – Danielle ria copiosamente enquanto via as fotos.
- Deixa eu ver! – Após ver: aquele velho te comia com os olhos! Deve ser um daqueles bem tarados!
- Vá se foder! Ele queria era você, loirinha dos lábios carnudos, boa de boca! Hahahahaha! – Uma tirava sarro da outra, mas nunca brigavam, sabiam que não passava de brincadeira.
- Eu porra nenhuma! Ele deve curtir aqueles sites tipo “big tits oriental girl”, bem a sua cara, sua vaca! – Leslie havia esquecido completamente suas preocupações. A presença de Danielle sempre a enchia de alegria.
- Ah, vá, ele estava olhando pra você, não pra mim! – Apontando com o dedo.
- Eu nada! Sai fora!
- Hahaha. L, falando sério agora. Você devia procurar um médico.
- Dani, não quero falar disso, ok? Vamos falar de outras coisas, por favor. – Os olhos verdes de Leslie pareceram mais opacos, quando ela terminou a frase.
- Ok, tudo bem. Bom, onde vou dormir?
- Ah, dorme no meu quarto, ué. Já dormiu nele antes.
- Hahaha, você me agarra durante a noite, sua emo do caralho!
- Vá se ferrar, porra! Eu nem vejo o que estou fazendo!

As duas resolveram subir para o quarto de Leslie, onde Danielle deixou sua bolsa. Como ela ia dormir lá, pediu para Leslie separar algumas roupas para que ela pudesse vestir. Depois disso, ficaram vendo vídeos engraçados pela internet. A cama onde Leslie dormia era grande, então as duas caberiam, sem maiores complicações.

- Ei, os traços da Ryoko ficaram legais! Ela parece comigo ou é impressão minha? – Danielle, apontando uma folha onde Ryoko aparecia sentada num balanço.
- Acho que sim. Vai ver acabei usando alguns traços seus nela, sem perceber. Gostou mesmo?
- Claro! Ficaram ótimos mesmo. Mas sei lá, pra que tanta violência?
- Nunca sentiu vontade de “exorcizar seus demônios internos?”
- Ah, sim, já. Claro que já. L, você sabe que pode falar comigo sobre o que quiser. – Vendo as outras páginas terminadas. Ao todo, eram dez.
- Sei sim, mas quis extravasar desenhando. Me sinto bem assim.
- Eu curto, também. Pretende publicar? Ouvi dizer que vai haver um evento de animes e que algumas editoras estarão procurando novos talentos. Só não sei ainda quando será.
- Sério? – Leslie se senta na cama, folheando uma revista. – Sabe onde será?
- Não ainda, mas assim que souber, te aviso!
- Beleza. Mas voltando, não sei se teria coragem, e ainda não terminei, também. Tenho que fazer muita coisa ainda.
- Ah, mas o evento não será tão já, então deve te dar tempo suficiente.
- É, talvez...

Depois de ver todas as páginas, Danielle pediu por algumas roupas, pois queria tomar banho. Pediu também por toalhas.Banho tomado, Danielle voltava para o quarto vestindo um agasalho preto, Adidas.

- Nossa! O chuveiro daqui é tão bom! A água fica quentinha! – Ainda enxugando os cabelos.
- Haha, é sim, senão eu morreria nesse frio!
- Ah, nem está tão frio assim. O inverno, por enquanto, está leve. Você deveria ver como é o inverno no Japão, sempre muito forte!
- Nunca fui lá, mas meu pai já foi algumas vezes. Ele trouxe uma máscara Kabuki uma vez, muito “rox”.
- Teatro Kabuki é cool mesmo. Fui algumas vezes quando era pequena.
- O que faremos agora?
- Sei lá, tem algum dvd legal aí? A gente podia assistir. Já vi tela de pc por tempo demais hoje!
- Só vendo na sala mesmo, eles não ficam aqui. Vamos lá embaixo então.

Já na sala.

- Esses todos são do seu pai??
- São sim.
- Caramba! Ele curte umas velharias, hein?
- Hahaha, sim. Meu pai curte mais os filmes clássicos, tipo Casablanca. Coisas da “época dele”.
- É, dá pra notar. Tem coisas aqui da época em que os dinossauros ainda existiam. – Mexendo nas duas prateleiras, repletas de dvds.
- Mas tem vários bons, não seja chata.
- Tá, tá, me mostra algum então.
- Que tal esse? – Leslie, pegando “Vertigo”, de Alfred Hitchcock.
- Nunca vi, é legal?
- Sim, bastante! É de um voyeur que tenta descobrir um assassino, você vai gostar.
- Tem pipoca, né? Porque, sem pipoca, sou incapaz de assistir qualquer coisa!
- Só estourar, oras... – Cara de, “só você ir à cozinha e fazer”.
- Nossa, a casa é SUA, e EU que tenho que fazer??
- É VOCÊ quem quer comer, então VOCÊ faz.
- Humpf, eu faço, vai... As duas foram para a cozinha, e em pouco tempo voltaram, trazendo consigo dois sacos de pipoca. Ficaram assistindo dvds até tarde.